quinta-feira, 25 de agosto de 2005

As três irmãs

Rafael Sereno *

Três meses após um funcionário dos Correios ter sido flagrado embolsando uma propina de R$ 3 mil, o país volta sua atenção para o Congresso numa expectativa incômoda, inflada pela divulgação do maior esquema de movimentação financeira envolvendo parlamentares já montado no país.


O governo do PT, inalcançável há alguns meses atrás para as eleições de 2006, viu a corrupção manchar seu emblema ético e pôr em risco as instituições, com um Congresso que não vota, ministérios vendidos ao fisiologismo e à inanição administrativa e um presidente vencido diante da arcaica estrutura política do país e da frustração da população que esperava um projeto de governo diferente daquele que elegeu em 2002. De quebras, três CPIs irmãs nascidas da mesma mãe: a corrupção.    

O que era uma simples denúncia jornalística transformou-se num ventilador público, a revolver fundos e limos descabidos do lodaçal político num espetáculo de suspense digno de Hitchcock.  De forma seriada, os personagens sentados na cadeira diante das câmaras conseguiram tornar a janta dos brasileiros mais indigesta nos últimos dias ao estremecerem os telespectadores com ameaças de um lado e negativas de outra.

Inquiridos a esclarecer ao povo as informações que jorram diariamente da imprensa, os convidados apenas fazem um prefácio para a novela das nove: negam de forma abrupta, pedem desculpas, acusam outros, dissimulam. Choram, mas não de modo latino. Talvez o fim da novela não tenha final feliz.

Diferente de outras CPIs, as três "irmãs" (Correios, Bingos e Mensalão) atingiram em cheio a estrutura política do país. Em 92, a CPI de PC Farias emparedou o Executivo com acusações gravíssimas que, investigadas pelo Legislativo, levaram Collor ao impeachment. No ano seguinte, os ventos da CPI do Orçamento se afastaram da Presidência e sobrevoaram a Câmara, derrubando os deputados 'anões' ligados às mamatas das emendas. Desta vez, os ventos sopram do silêncio das estatais para ganhar força, fustigar o partido que comanda o país e colocar o Congresso em xeque. E agora levemente roçam as barbas do presidente.

Se uma já faz estrago, três CPIs então forçam, no mínimo, um descrédito a mais, senão redundante, do povo brasileiro em relação à classe política.

Adiada desde fevereiro de 2004, a dos Bingos parece ser a 'menor' de todas. Não por manter-se distante da linha do tempo da memória do povo, mas pela singular cobrança de propina feita por um assessor do segundo escalão de Brasília. É brisa perto do ciclone chamado mensalão.

O esquema montado pelo publicitário Marcos Valério bate na casa dos milhões e, na mais simplória das hipóteses, sustentava esquema de caixa dois, que também não deixa de ser crime. Na pior, se confirmados os pagamentos da mesada, mancha a embalagem ética que revestia o partido eleito sob o epíteto da decência e seriedade. Pode levar boa parte do Congresso pra fora da vida pública, já que enquadrá-la na prisão seria exigir muito de um sistema penal obsoleto.

Mais adiantada de todas, a CPI dos Correios desviou seu foco original, deu um show de exibicionismo de alguns parlamentares, que viram na suposta mesada algo de diferente e próprio para sua atuação, e entrega à CPI do Mensalão meio caminho andado nas investigações.

O que ninguém imagina é onde a estrada pode chegar. É como se as três irmãs tivessem avançado em alta velocidade na estrada da cidadania, ultrapassado o sinal amarelo da paciência da população e, desgovernadas, beirassem o limite da confiança de um país. Se as denúncias forem se confirmando, o governo petista pode na acabar na UTI. Agonizando.

* Aluno do 4º semestre de Jornalismo