Quais são os culpados pela crise política no país?
São vários fatores que levaram ao que estamos presenciando. Quando pensamos em crise política, é sempre bom lembrar que existem os sujeitos, que são seres humanos e podem falhar. Temos a questão do funcionamento de nossa República, a maneira como ele propicia a corrupção, o desvio de verbas e o privilégio a determinados grupos. Hoje, os principais dirigentes do PT, dos partidos da base aliada, são os personagens responsáveis pela crise. Mas não são só eles. Existe a questão da grande dívida que o PT herdou do governo do PSDB, as maracutaias dos governos anteriores, e não podemos esquecer que passamos por 20 anos de ditadura que deixou heranças macabras.
Qual é sua avaliação do governo Lula?
O governo Lula está acima da média, mesmo não concordando com muitas coisas que o governo fez e está fazendo. Ele conseguiu fazer o que o país mais temia: controlar a economia, mantendo-a numa linha crescente, com o PIB aumentando. Acredito que isso foi um ponto positivo. Reconheço que não elegemos Lula para administrar a economia. Ele foi eleito para resolver as questões sociais e, nesse sentido, o governo Lula é abaixo da média. É um governo medíocre, que não tem posturas nem propostas claras. As pessoas que estão no comando dos Ministérios da Educação, Saúde e na Secretaria de Direitos Humanos não conseguem manter projetos sociais claros e com isso o governo se degringolou.
Com o desgaste da classe política, é possível a retomada de governos autoritários?
O risco sempre existe, mas acredito que o contexto atual não é apropriado. Hoje, um golpe militar, ou algo nesse sentido, seria muito ruim. Não sei se existem lideranças, mesmo dentro dos quartéis, com capacidade para isso. O mesmo vale para golpes de esquerda. Veja o ocorreu na Venezuela: o golpe foi dado por uma pessoa dita de esquerda. Sabemos que o presidente Hugo Chaves é uma pessoa desequilibrada, mas ele surgiu de dentro dos quartéis com aspiração de esquerda, e esse risco o Brasil também corre. É muito complicado porque o Brasil possui uma estrutura social em que as coisas não ficam girando simplesmente em torno das questões macro, ao contrário da Venezuela, que a economia gira em torno das empresas petrolíferas. No Brasil, isso não existe. Não temos só petróleo. Temos uma diversificação muito grande na economia.
Como está a atuação da igreja diante desse escândalo? Existem espaços para a discussão da crise?
Sim, fazemos uma discussão muito interessante. Publicamos um texto no jornal fruto de uma reflexão feita com os leigos. Como formador de opinião, tenho dito nas homilias durante as missas. Assim como todo o Brasil foi pego de surpresa, há dentro da igreja muita gente que não quer ouvir nunca mais falar de política, porque o PT era uma última esperança e agora se igualou a todos os partidos. É um grande desserviço à formação política do povo. Para conseguirmos envolver o cidadão numa discussão política, ainda vai demorar um bom tempo.
É provável o impeachment do presidente?
É possível, e se isso ocorrer será uma pena, porque contraria todos os princípios democráticos. Nesse momento, não temos uma estrutura social e política com a capacidade para agüentar um processo de impeachment. Desconfio que poderá chegar a esse ponto, mesmo porque existe, por parte da burguesia e da aristocracia política, um desejo muito grande de vingança contra o PT. E o PT cavou a própria sepultura, porque na oposição fazia de tudo para provocar o impeachment. Agora, está recebendo o troco.
É algo assustador o presidente Lula sofrer o impeachment. O primeiro da linha sucessória é José Alencar, cujo partido está envolvido no escândalo. Aí teríamos o Severino Cavalcanti como presidente e as coisas seriam muito complicadas. Não temos visto demonstração de equilíbrio de sua parte na Presidência da Câmara. É uma pessoa que foge completamente de uma política moderna. É perigosa sua maneira de pensar. Acho que seria uma forma de golpe branco. Não seria um golpe militar no sentido de revolta, mas sim um golpe na democracia colocar um homem como o Severino para governar o Brasil nesse ano e meio que falta.
Qual a alternativa para Lula e o PT?
A crise já passou dos cem dias e o governo não fez nada. A primeira questão básica: punir os culpados, mesmo que se cometam algumas injustiças, porque não há muita clareza de quem é o culpado. Fazer isso diminui um pouco a tensão social e a pressão dos partidos de oposição. Outra questão é que o governo Lula não deveria ficar tão imobilizado como ele está hoje. Temos clareza que o presidente é bom de discurso e não de administração. O que Lula faz são aqueles discursos vazios. Bobagem essa atitude do presidente de ir para pequenas cidades fazer discursos em palanques. É a pior estratégia que o governo poderia ter adotado. Isso só vai contra o governo e na mira da imprensa, que está louca correndo atrás de falhas ou qualquer coisa que envolva o governo. Seria interessante se o PT punisse os culpados internamente e promovesse a mudança na estrutura política, principalmente acabando com a característica de tendências dentro do partido. Na minha opinião, é a grande falha do PT, que é um monte de partidos dentro de um só. Para o governo, seria bom punir quem tem de ser punido e administrar, o que o governo não fez até agora.
* Aluno do 4º semestre de Jornalismo