segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Erros e chances

Rafael Sereno *

A eleição do novo presidente da Câmara dos Deputados, marcada para esta quarta-feira, é decisiva para o cenário político nacional. 

Com a imagem devassada pelas denúncias de corrupção nos últimos quatro meses, o Parlamento tem a chance de recompor-se a tempo, antes de um novo processo eleitoral.

Mas não é tão simples. A aventura Severino, cria da incompetência da articulação política e da infantilidade oposicionista, ainda está na mente do eleitor brasileiro. 

Político dotado das qualificações mais dispensáveis - fisiologismo, nepotismo e conservadorismo - sua passagem pela Pesidência da Casa foi marcada pela inércia provocada pelo escândalo do mensalão que ele não soube conduzir, o "apóia-não-apóia" em relação ao governo Lula que, nessa balança, foi obrigado a se render diante da posição de Severino, e pelos poucos projetos de relevância votados durante o período.

Agora, o "mensalinho" de Severino deixa como legado a imagem da corrupção que impregna o Parlamento. O novo presidente da Câmara terá o desafio de colocar a Casa em ordem e reunificar as divisões (que são grandes) numa agenda comum que ajude o país. Nada fácil, se considerarmos que a disputa de 2006 já teve sua discussão antecipada.

Na disputa pela presidência, temos o deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), como representante do governo. Aposta audaciosa, visto que Aldo esteve à frente da Articulação Política quando fracassou na eleição de Severino. 

Na chance de corrigir seu erro (outra não haverá), o Planalto, mais uma vez, pode falhar. E nessa, Lula, que indicou Aldo, terá inteiramente a responsabilidade.

Pela oposição, José Thomaz Nonô (PFL-AL), presidente interino da Casa, é tudo o que o Planalto não deseja. Unido com o PSDB, poderia atravancar os trabalhos e dificultar a aprovação dos propósitos petistas. 

No entanto, o receio do PT é a possibilidade da abertura do impeachment. Nonô descarta, mas Lula não quer correr riscos.

Michel Temer (PMDB-SP), ex-presidente da Casa, também está nas negociações. Mas sua presença é incerta. Na última hora, poderá retirar sua candidatura. 

E como o raio às vezes cai duas vezes no mesmo lugar, há também Ciro Nogueira (PP-PI), aquele que Severino queria como ministro, representando o baixo clero. Nunca se sabe.

Responsável pela organização da pauta e coordenação das votações no plenário, o presidente da Câmara é o terceiro na linha sucessória presidencial. 

Posto que o destino geralmente não dá chances tão oportunas de se reverter um erro como o de Severino, nossos deputados possuem esta chance. Não dá pra aceitar um novo erro.   

* Aluno do 4º semestre de Jornalismo