quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Seminário debate 'Indentidade Brasil'


Rafael Sereno e Lucas Claro *

Em parceria com a ECA/USP, a TV Globo realizou no último sábado, 17, o 3º Seminário do Curso de Especialização em Telejornalismo. O tema do debate, mediado pelo jornalista José Roberto Burnier, foi "Identidade Brasil". O evento é voltado para estudantes e profissionais da área de comunicação.

Estiveram presentes Luis Antônio Oliveira, coordenador de População e Indicadores Sociais do IBGE, a professora Lisbeth Rebollo, da ECA/USP, Neide Duarte, ex-produtora de "Caminhos & Parcerias" da TV Cultura e atual repórter da TV Globo, e Maurício Kubrusly, repórter especial do quadro "Me leva Brasil", exibido no Fantástico aos domingos. 

Luis Antônio Oliveira iniciou o debate enfocando as novas características do Brasil. Em sua exposição, ressaltou o crescimento populacional que está ocorrendo no país, como o patamar de 40 milhões de habitantes alcançado recentemente pelo estado de São Paulo. "No início do século XX, mais de 80% da população vivia em áreas rurais. A partir da década de 60, o panorama mudou, com a industrialização do Sudeste".

Segundo Oliveira, este fato propiciou um crescimento extraordinário nas grandes cidades, em especial nas regiões Sul e Sudeste. Ele ainda mencionou outras características marcantes, como o número elevado de mulheres chefiando os lares, que hoje é cerca de 30%.

Ex-produtora de "Caminhos & Parcerias", exibido pela TV Cultura, onde trabalhou por sete anos, Neide Duarte apresentou em vídeo uma reportagem feita com a ONG Cais do Porto. O programa relatou o trabalho desenvolvido por mulheres parteiras no sertão nordestino. 

As imagens, marcadas pela rudeza das condições locais, revelaram a simplicidade do sertanejo, num momento caracterizado por eles como especial, que é o surgimento do novo, simbolizado pela criança que vai nascer. 

A jornalista lembrou que o país possui muitos locais onde a tradição resiste à modernidade, que hoje molda boa parte da sociedade: "Nestes lugares, o que vale é a reciprocidade humana. Quem passa hoje os valores é a televisão e não mais a tradição", afirmou.

A identidade cultural sob o confronto cultura-mercado foi abordada pela professora Lisbeth Rebollo, que mostrou a relação através da exposição de imagens da 4ª Bienal do Mercosul. 

Ela enfatizou a ligação da arte contemporânea com a realidade, exibindo ilustrações de artistas argentinos, como a de Sérgio Avello, com luzes de néon em azul e branco, piscando alternadamente e formando a bandeira do país desfragmentada, numa alusão à crise vivida em 2002, e o fotojornalismo, do paraguaio Jorge Saens. 

Experiente em reportagens que abordam aspectos populares, como festas e personagens folclóricos, o repórter Maurício Kubrusly contou particularidades que conheceu durante as viagens. 

Kubrusly comentou sobre a pobreza do país que, segundo ele passa despercebido para a maioria da população. "Temos lugares no Brasil que não tem esgoto". 

Segundo ele, os brasileiros não conseguem dimensionar o tamanho do próprio país. "Dentro do Brasil, temos várias identidades", afirmou o repórter, que citou os diversos sotaques existentes no país como exemplo dessa diversidade: "Os termos e situações variam ao longo do país, o que é absolutamente fascinante".

Me leva, Brasil

Em seu livro "Me leva, Brasil: a fantástica gente de todos os cantos do país", lançado este ano pela Editora Globo, Kubrusly conta algumas histórias marcantes que levou ao ar no quadro do Fantástico. 

Ele revelou que aprendeu muito ao fazer as reportagens. "Para fazer o livro, escrevia as histórias que vinham. Depois, ao organiza-las em seções, como bichos, comida, gente, enterro, descobri algumas que não se encaixavam em uma seção específica".

O autor decidiu reunir estas histórias em um capítulo à parte com o nome de 'Sala de Professores'. "Retrata pessoas que, durante as reportagens, me deram verdadeiras lições de vida". 

Sobre a imagem do país exterior, Kubrusly não a vê de forma negativa. "Por onde estive, a impressão que eles têm de nós é a de que somos um povo simpático. Para eles, o Brasil é sinônimo de lugar alegre, muito bonito, praias limpas e festa". 

Segundo ele, o que falta é uma projeção turística mais eficiente: "Nunca tivemos turistas aqui como antes, só que nossa estrutura ainda é lamentável".

* Alunos do 4º e 2º semestres de Jornalismo