quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Voto pela Paz: 'sim' ao desarmamento

Rodrigo Cezarin *

"Criança morre após acidente com arma de fogo". "Trabalhador é assassinado com seu próprio revólver". "Discussão entre vizinhos acaba em tragédia". "Motorista tenta reagir a assalto e é baleado". Essas são manchetes que já lemos e continuaremos a ler se, no dia 23 de outubro, a maioria disser "não" no referendo sobre o desarmamento.

Primeiramente, acho uma insanidade ou, pelo menos, uma falta de conhecimento aquele que pensa que ter uma arma em casa ou portá-la durante o trânsito representa segurança. Bandidos bem preparados não darão chance de você tentar lembrar onde guardou sua pistola. Bandidos mal preparados, então (muitas vezes mais nervosos que você), atirarão antes que você possa esticar o braço e sacar o seu 38.

Num assalto, seqüestro relâmpago, tentativa de estupro ou qualquer tipo de abordagem é comprovado que a vítima (sem falar do criminoso) fica extremamente nervosa, o que, digamos, é natural. Sob essa pressão é quase impossível ter a capacidade de raciocinar e reagir tranquilamente à situação. Também é ilusão pensar que, votando contra ao desarmamento, o cidadão poderá circular livremente pelas ruas da cidade ou manter na primeira gaveta de seu criado mudo um revólver. Na prática, continuará do jeito que é hoje.

É óbvio que desarmar o cidadão civil não vai terminar com os crimes, até porque sabemos que os criminosos não compram armas em lojas legalizadas e muito menos mantém registro delas. Porém, temos que eliminar os problemas a partir dos menores detalhes. Muitos crimes acontecem com armas legais que são roubadas de seus donos. Por menor que essa proporção possa parecer, você não gostaria de saber que seu pai foi morto com a arma que o ladrão tirou do seu vizinho, não é? Nessas horas você pensaria: "se ele não tivesse aquela arma em casa, isso não teria acontecido".

Particularmente, nunca tive e nem nunca pensei em ter arma de fogo em casa. Não quero imaginar meu filho abrindo a gaveta e brincando com isso. Aí você me diz: "mas se eu tiver, vai estar bem guardada". É, entendo, tão bem guardada que você jamais terá acesso quando o ladrão te trancar no banheiro.

Não acreditar na polícia não justifica querer fazer justiça com as próprias mãos. Existem outras maneiras de protestar por mais segurança, mas ninguém é capaz de descolar seu traseiro da cadeira e ir às ruas pedir isso, e agora quer nas urnas dizer "quero uma arma pra mim". E olha que nem é nisso que iremos votar. 

Eu não poderia deixar de fazer uma crítica aos políticos. Nós temos quase 600 legisladores em nível federal, entre deputados e senadores, os quais, bem ou mal, foram eleitos para decidir as leis pelo povo, e não fazer-nos ir às urnas para tomar uma decisão que outorgamos a eles em outubros passados.

Se ter uma arma de fogo em casa fosse tão bom, mais de 400 mil pessoas não teriam se mobilizado em menos de um ano para entregar as suas, durante a gloriosa Campanha Nacional do Desarmamento. Deixo como reflexão a seguinte frase, já utilizada pelo próprio governo em campanhas anteriores: "Quem usa arma é bandido ou polícia. Se você não é polícia..."

* Aluno do 4º Semestre de Jornalismo