Rafael Sereno *
Ricardo Berzoini, representante do Campo Majoritário - ala que domina o PT há dez anos - tem, na defesa do governo Lula, o principal fundamento para a manutenção do grupo.
Já seu oponente, Raul Pont, da Democracia Socialista, ex-prefeito de Porto Alegre, uma das mais bem-sucedidas experiências petistas, defende a volta às origens socialista, com posições radicais em relação à economia.
O eleito terá uma difícil missão. Caracterizado ao longo de tempo como um partido "ético", o PT viu seu projeto de reeleição para 2006 ameaçado pela denúncias de corrupção.
O partido teve a cúpula degolada dentro de 30 dias. O ex-ministro da Casa Civil foi o primeiro. Fundador e ex-presidente do PT, Dirceu teve papel significativo na composição de alianças que elegeu Lula.
No governo, manteve posição de destaque ao lado de Palocci e Gushiken no chamado "núcleo duro", a quem o presidente ouvia antes das decisões. Caiu no levantar do dedo acusador de Roberto Jéferson (PTB) e agora luta para não ser cassado.
Em seguida, Delúbio Soares, o ex-tesoureiro. Acusado de distribuir mesadas para governistas votarem a favor do governo, Delúbio celebrizou-se pelo "choro das oito da noite" e pela negação.
Negou veementemente as acusações e relações com Marcos Valério e não saiu do partido. Esforça-se para não levar a culpa sozinho e, para isso, agarra-se no partido para se salvar.
Sílvio Pereira, ex-secretário-geral, foi além. Confessou a regalia de um "Land Rover" por meio de um favorecimento à empresa GDK, numa licitação para a Petrobrás. A grana na cueca de um assessor do irmão do ex-presidente do PT, José Genoíno, foi o golpe fatal. Fez o PT virar piada nacional.
O Brasil só perdeu com a fragilização do PT. Partido de origem esquerdista, transformou o pensamento radical-sindicalista de 1980 numa máquina partidária com mais de 800 mil filiados no país que chegou ao poder pelo voto direto após três derrotas seguidas.
Agora, o partido que recebeu solidarizações pelas mortes dos ex-prefeitos de Santo André, Calso Daniel, e de Campinas, Toninho, vê sua história ser colocada em xeque. Em 2001, o caso Santo André por várias vezes enredou-se pela trama política. Acabou em crime comum.
Na atual crise, a morte de Celso Daniel retoma com novas possibilidades. Pode desvendar o início do período negro do PT. A tese de crime comum já não convence. O ex-prefeito sabia ou estava envolvido em caso de corrupção.
E no meio do caminho, o PT chega à beira dos trilhos buscando uma maneira de se reerguer no cenário político.
Ainda que tenha de cortar da própria carne na cassação de deputados e mesmo que convença na política econômica, a cruz de Santo André indica duas saídas: reestruturação política-ideológica ou derrota certa em 2006.
Para que faça a escolha, o PT tem a ferramenta ideal nas mãos: o governo.
