segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Leia na íntegra artigo sobre Vlado

Rodrigo Guidi *

Filho único de um casal judeu da Iugoslávia, Vlado conhece muito cedo um regime ditatorial. Foge com seus pais para a Itália, onde ganha o nome de Mário e aprende o italiano para não despertar a suspeita nazista. Zigmund, seu pai, não consegue aprender o idioma e passa por mudo para salvar a vida de sua família. Os ditadores calam o primeiro Herzog.

Vlado chega ao Brasil ainda criança e muda mais uma vez seu nome. Passa a ser Vladimir, que soa um pouco mais brasileiro.

Apaixonado por Sartre e por cinema, estuda Filosofia na USP (talvez Vlado quisesse tentar entender o ser humano). Ainda na faculdade começa sua brilhante, porém curta carreira de jornalista.

Conhece Clarice, com quem se casa e muda-se para a Inglaterra, onde nascem seus dois filhos. Foge novamente, desta vez dos ditadores brasileiros. Lá conhece o telejornalismo e o jornalismo público da BBC; faz curso sobre cinema, sua paixão, e descobre, em Roma, dois dias antes de voltar, que a censura no Brasil está ainda mais forte.

De volta ao país, trabalha na revista Visão. Vlado enxerga longe, sempre enxergou e não demora a pedir ao amigo Rodolfo Konder para ingressar no partido comunista. Vlado odiava a idéia da luta armada contra o regime militar, mas defende que os jornalistas não podem ficar passivos diante dos abusos e do cerceamento da liberdade de expressão, promovidos pelos militares. Vlado é uma pessoa democrata, incapaz de viver sob um regime ditatorial, assim diz sua origem, assim diz Clarice.

Em julho de 1975, Vlado assume a direção de telejornalismo da TV Cultura e então começam as denúncias de infiltração comunista na emissora, numa campanha desumana e cheia de inverdades, alimentada por um jornalista e por políticos do partido do governo.

"Quando dois elefantes brigam, quem sai perdendo é a grama". O provérbio indiano lembrado por Rodolfo Konder retrata bem a situação da época. De um lado o presidente Geisel e os que defendem uma abertura "lenta, segura e gradual"; do outro os chamados duros, que controlam o aparelho de repressão e querem a manutenção da ditadura militar. No meio disso tudo, os jornalistas, fazendo o papel de grama.

Tem início a chamada Operação Jacarta, desencadeada no começo de outubro de 1975 para prender os "subversivos". Alguns colegas de Vlado como Rodolfo Konder, George Duque Estrada e Paulo Markun já estavam presos quando ele se apresenta espontaneamente no DOI-CODI, na manhã do sábado, dia 25.

O jornalista é interrogado pelo capitão Ramiro, depois começa a sessão de pancadas e por último uma boa dose de "pimentinha", engenhoca inventada pelos militares para aplicar choques elétricos nos presos. Vlado não se entrega. Os militares se excedem.

Vlado está morto. Segundo a nota oficial do II Exército, cometera suicídio com uma tira de pano de seu macacão. Segundo a nota do Sindicato dos Jornalistas, uma morte a ser esclarecida e a denúncia dos abusos e arbitrariedades cometidos pelo II Exército.

Os ditadores calam o segundo Herzog, mas não calam os jornalistas, os estudantes, a Igreja e o povo brasileiro. Oito mil pessoas se reúnem na Catedral da Sé, em São Paulo, para um culto ecumênico em memória de Vladimir Herzog. Os militares tentam, sem sucesso, abafar o evento, marco na luta pela democracia no país.

Vladimir Herzog vira mito e hoje, 30 anos depois, faz falta ao jornalismo brasileiro, que carece de pessoas visionárias, engajadas e com a real noção de sua responsabilidade perante a opinião pública e a profissão que escolheram.


* Aluno do 8º semestre de Jornalismo