segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

TV digital começa com modelo analógico

Jonas Valente *

No domingo (2), estreou no Brasil a transmissão digital dos sinais de televisão. Cercada de pompa por emissoras e governo federal, com direito a cerimônia com presença do Presidente da República transmitida em cadeia nacional, a novidade vem sendo apresentada como um novo momento na história da televisão, hoje presente em mais de 95% dos lares brasileiros.


"A TV ficará mais próxima do telespectador, oferecendo qualidade superior de imagem, maior número de canais, interação do público com a programação e transmissão perfeita para TVs, TVs em ônibus, trens e outros transportes coletivos", afirmou Lula resumindo as pretensas funcionalidades da nova tecnologia. Para especialistas e estudiosos entrevistados pelo Observatório do Direito à Comunicação, no entanto, a TV digital que entrou no ar esta semana utiliza nova tecnologia, mas mantém o modelo analógico de existente atualmente.

O fato pode ser percebido justamente pelo não aproveitamento das possibilidades listadas pelo presidente. A primeira delas é a multiplicação do número de programações em até seis vezes. Embora Lula tenha manifestado na cerimônia a oportunidade de termos "vários canais", citando como exemplo aqueles reservados aos ministérios da "educação, saúde e uma TV pública federal", a transição deixará pouco espaço para novas programações. Isso por que foi dado às emissoras, para a transmissão em digital, o mesmo espaço que elas utilizam para a transmissão analógica, embora a nova tecnologia demande menos faixa de freqüência.

Esta decisão, aliada ao mau uso do espectro atualmente (com emissoras que não prestam um serviço público de qualidade mínima), resultou na sobra de poucos ou nenhum canal em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, impedindo a entrada de novos agentes na produção e difusão de conteúdo audiovisual. "Com o favorecimento aos operadores de TV, mantém-se, no mínimo, a concentração no setor, o que dificulta a democratização que a TV Digital poderia trazer com a entrada de novos atores, especialmente os não hegemônicos, locais e independentes", lamenta o professor César Bolaño, pesquisador e autor de livro sobre o tema.

Interatividade?

Outro exemplo de potencialidade que está ausente nesta primeira fase da TV digital brasileira é a interatividade. Na cerimônia de lançamento em São Paulo, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, afirmou que "a população terá acesso a informações e serviços públicos, marcará consultas médicas, receberá e enviará informações pela TV". Entretanto, estes serviços são uma aposta para o futuro e não uma realidade do presente. Os conversores (aparelhos que "lêem" o sinal digital para ser assistido pelo televisor analógico) colocados no mercado não possuem o software que realiza este tipo de operação.

Um problema adicional é que este programa, o middleware Ginga, seria a única tecnologia brasileira presente em todo o padrão digital utilizado no Brasil. No entanto, embora o ministro das comunicações, Hélio Costa, diga que há acordos em andamento para a inserção da inovação nos conversores, hoje não há qualquer previsão de quando isso será feito. Para Gustavo Gindre, pesquisador da UFRJ e integrante do Intervozes, o motivo da ausência de interatividade não é tecnológico, mas econômico.

"Não há interatividade porque os radiodifusores não querem. Primeiro, porque o cidadão que fizer uso destes serviços estará deixando de assistir a programação das emissoras. E isso representa perda de audiência e, portanto, de faturamento". Além disso, acrescenta Gindre, "a interatividade demandaria um canal de retorno, possivelmente em banda larga, e tudo o que os radiodifusores não querem é ver alguém conectando uma banda larga na TV e implodindo com o controle que eles exercem sobre a televisão brasileira".

Celso Schroeder, do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), avalia que o resultado disso é um modelo "onde se tem a menor convergência possível, a menor possibilidade de intercâmbio entre as várias plataformas e entre os vários serviços possíveis de telecomunicação e comunicação".

TV digital para ninguém

Os conversores não têm dado só o que falar na ausência de funcionalidades. A questão mais polêmica dos primeiros dias da TV digital tem sido o alto custo destas caixinhas, com preços variando entre 500 e R$ 1000. O valor tem afastado os telespectadores do usufruto da nova tecnologia, gerando o risco da televisão digital ser assistida por uma pequena elite de pessoas de alta renda.

Durante todo o período de preparação para o início das transmissões, o ministro das comunicações, Hélio Costa, prometeu reiteradamente que o conversor chegaria a R$ 200, o que não se confirmou. Em um gesto de desespero, Costa partiu para o ataque aos fabricantes afirmando que estes estariam boicotando a TV digital ao inflar os preços, uma vez que no Japão o conversor sai por volta de US$ 100.

A resposta concreta foi o anúncio de um programa de incentivos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no montante de R$ 1 bilhão que financiaria a compra do conversor no varejo. Reportagens recentes, entretanto, mostraram que estão sendo usados recursos de outro programa do banco destinado ao financiamento da aquisição de infra-estrutura de transmissão para as emissoras que estão migrando para o sistema digital.

Independente do volume e origem dos recursos, o que passa despercebido na cobertura sobre o caso é o gasto de dinheiro público (por meio destes financiamentos e da isenção fiscal para a indústria) para "correr atrás do prejuízo" e corrigir equívocos do próprio governo, que poderia ter dado ouvidos a especialistas e institutos de pesquisa que, à época da escolha da tecnologia a ser adotada pelo Brasil, já apontavam que o padrão japonês poderia gerar custos altos pelo fato da tecnologia carecer de escala, já que é utilizada somente naquele país. Além disso, outros componentes internacionais foram incorporados, tornando a tecnologia utilizada no SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital) uma composição única no mundo.

Para Gustavo Gindre, a decisão do governo é equivocada. "Graças ao dinheiro público, o governo ajudará na venda de aparelhos que não captam imagens em alta definição, que não têm interatividade e que serão utilizados para que o usuário assista a mesma programação disponível na TV analógica. Ou seja, o governo vai subsidiar a compra de seletores de canais. E quando, no futuro, houver interatividade, tais aparelhos terão que ser jogados no lixo", critica.

O ministro Hélio Costa respondeu as críticas afirmando que "o conversor vai cair de preço vertiginosamente nos próximos meses", apostando em um movimento dos fabricantes e no ganho de escala pelo aumento das compras. No entanto, pesquisa feita pelo Instituto Qualibest com 2 mil internautas mostrou que 44% dos entrevistados não pretendem comprar o conversor agora e vão esperar "o assunto amadurecer". Outros 56% afirmaram só comprar se o preço chegasse aos R$ 200 reais. Apesar da curiosidade, não é possível assegurar que a parcela de maior renda da população "cujo papel na geração de escala e redução do seu preço é fundamental" irá comprar o conversor, uma vez que boa parte dela já dispõe do serviço de televisão por assinatura, com imagem igual ou melhor e maior oferta de canais.

Fonte: www.direitoacomunicacao.org.br

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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Mundo real, infância virtual

Juliano Schiavo *

O controle na mão. O corpo estático. Os olhos fixos numa tela. Uma brincadeira virtual. O objetivo? Depende do jogo. Tudo se resume em vencer os objetivos, superar as metas. Caso não se consiga, há os códigos de trapaça, que facilitam tudo e que tornam a personagem invencível.


E as brincadeiras do mundo real? Pega-pega, cobra-cega, esconde-esconde, carrinho de rolimã? São fábulas do passado. A infância, antes praticada nas ruas, hoje está confinada a um quarto. O quarto, reduto da individualidade, tem tudo a oferecer: computador, videogame e televisão. E só. Já está feita a brincadeira. Basta ligar a tela e se divertir.

No século 20, a sociedade passou por uma grande mudança e pela inversão de valores. As ruas são violentas. Pessoas andam desgovernadas para cumprir suas tarefas diárias de acordo com os ponteiros do relógio.
 
A infância do brincar, do ralar o joelho, do raspar o cotovelo, transformou-se na infância do jogo virtual. Pais e mães ausentes. Para suprir a ausência, compram-se presentes. Como ter princípios se o eixo familiar está frouxo? Como valorizar o indivíduo se o que se oferece é um presente e não o amor, a palavra, o carinho? Os valores mudaram. E a sociedade perdeu.
 
É fácil para um pai colocar o filho na escola e esperar que ele seja educado. Difícil é entender por que esse filho usa drogas, é revoltado e tem depressão. Será que a culpa é da escola? Do governo? Do PCC? Da Globo? Da Xuxa? A culpa é da família.
 
Vivemos em uma coletividade desguarnecida de amor fraterno. Uma coletividade que só sabe culpar terceiros e que não olha para o próprio umbigo, imundo, sujo, e que necessita ser limpo o mais rápido possível. Somos a sociedade da infância perdida, dos valores perdidos, do fim da esperança de um mundo melhor. Morremos e esquecemos de deitar.

O autor é estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca e colaborador da Agência Nova

* jssjuliano@yahoo.com.br

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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Do popular ao literário: jornalismo em pauta


Daíza Lacerda *

Mário Rossit, editor do Notícia Já, e Fábio Gallacci, repórter do Correio Popular, estiveram na quarta-feira, 24, na 8ª Semana de Comunicação do Isca Faculdades. Os jornalistas, que atuam nos jornais da Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), de Campinas, propuseram um bate-papo informal com a platéia, no qual falaram do dia-a-dia nos veículos e dos prêmios que já obtiveram por seu trabalho.


Sobre o Notícia Já, um tablóide popular vendido a 50 centavos na região de Campinas, Rossit explicou que o jornal visa abrir espaço no mercado, atendendo a um público formado por novos leitores. "Hoje o jornal mais vendido do Brasil é um popular, oSuperNotícia, da região metropolitana de Belo Horizonte, que vende 300 mil exemplares por dia".

Esportes, celebridades e polícia são os temas de peso do . Política e economia têm pouco espaço. Rossit afirmou que "a abordagem em economia é de prestação de serviços", e de polícia é "mais de humor do que de tragédia". Acrescentou também que não há um compromisso rígido com a linguagem, e que o tablóide usa o tom coloquial e até gírias do cotidiano, como "busão" ao invés de ônibus, por exemplo.

O editor vê o jornal popular como a "salvação para o meio impresso", o que se reflete na diminuição da vendagem dos grandes jornais e na alta dos populares como oSuperNotícia (MG), Extra (RJ) e Diário Gaúcho (RS).

Prêmios

Mário Rossit, que foi também editor de Cidades da Folha de S. Paulo e do jornal Agora São Paulo, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2001 com reportagens sobre a contaminação provocada pela Shell em Paulínia (SP). "O fato tomou repercussão nacional", lembra o editor, referindo-se à denúncia de contaminação da água em um bairro residencial ao lado da empresa química. A conseqüência para os moradores da região foi a elevada ocorrência de vários tipos de câncer, além de problemas neurológicos e renais.

O repórter Fábio Gallacci ganhou o mesmo prêmio em 2006, com uma série de reportagens sobre os chamados "sanguessugas", na qual denunciou a participação de quatro deputados da região de Campinas na compra de ambulâncias superfaturadas. Para Gallacci, no entanto, o maior prêmio foi o fato de nenhum deputado ter conseguido se reeleger, tendo um deles perdido 90% dos votos em relação à eleição anterior.

Considerou as reportagens um fruto de sorte e persistência: "As pessoas começaram a confiar no trabalho e a me alimentar com informações. Eles [os envolvidos] não foram punidos no Congresso, mas nas urnas".

Dia-a-dia e mercado

A pauta é o repórter quem traz da rua, concordam os jornalistas da RAC. Segundo Gallacci, "nem sempre o editor tem a noção do real. Ele tem idéias, mas não sabe como executá-las". Já o repórter sabe o que acontece, pois "está na linha de frente, dá a cara à tapa na rua".

Os jornalistas falaram da rotina das redações e dos conflitos entre os setores comercial e editorial. "É um relacionamento tortuoso, mas temos de andar juntos", ponderou Rossit. Apesar de muitas matérias ficarem "na gaveta" para dar espaço aos anúncios, Gallacci considera que "o departamento comercial é o carro-chefe do veículo". O repórter avaliou a força do mercado regional, que em sua opinião deve ser valorizado: "É possível fazer um jornalismo sério, de qualidade, que repercute na sua cidade". Rossit acrescentou que nos jornais regionais há maior estabilidade em comparação aos grandes veículos, onde a rotatividade de profissionais é constante.

A importância de saber cultivar fontes e ter uma boa agenda, assim como o crescimento do campo da assessoria de imprensa, também foram assuntos discutidos. "O assessor facilita o trabalho do jornalista", declarou Gallacci. E Rossit concluiu: "Se for um bom profissional, não vai ficar desempregado".

Jornalismo Literário

Passar-se por cego ou ficar seis horas esperando atendimento em hospital para fazer uma reportagem que tenha "conseqüências positivas para as pessoas". Tomar o "Santo Daime" - chá alucinógeno feito de folhas e raízes da Amazônia - ou viver um dia de "bicão" sem gastar nada, aproveitando cafezinhos e test drive grátis. Estas são algumas das experiências do repórter Fábio Gallacci, que também já se vestiu de mulher para entrar num clube das mulheres, onde pôde fazer "jornalismo literário, sem as amarras do lead".

Em entrevista à Agência Nova, Gallacci falou do diferencial oferecido pelo chamado jornalismo literário: "É um jeito diferente de contar uma história, e se for bem feito, com informação e texto diferenciado, tem cada vez mais espaço [na mídia impressa]".

* Estudante do 6º semestre de Jornalismo e editora da Agência Nova

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Internet mudou relação entre jornalista e leitor


* Gustavo Nolasco e Mariana Antonella

A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo, abriu a 8ª Semana de Comunicação (Secom), do Isca Faculdades, com uma palestra sobre mídia, realidade e política brasileira. Ela abordou assuntos relacionados à política nacional e internacional, televisão pública, escândalos e comportamento da imprensa, entre outros.


A Secom foi aberta na segunda-feira, 22, e reuniu alunos e professores dos cursos de Jornalismo e Publicidade do Isca.

Eliane mudou-se para Brasília aos nove anos de idade. Aos 14, decidiu que seria jornalista. "Eu gostava de ler e de escrever. Nessa época, pedi de presente de Natal, para minha mãe, uma máquina de escrever portátil, mas ela me deu uma televisão. Eu chorei e briguei até minha mãe me dar a máquina".

Formada pela Universidade de Brasília (UNB), Eliane ingressou na faculdade aos 18 anos, e já no terceiro semestre foi convidada para fazer estágio em jornal. "Virei jornalista profissional antes de ser formada". Ela ingressou na carreira jornalística ainda durante a ditadura. "Os jornalistas não tinham acesso a nada. Essa era uma das maiores dificuldades da censura. Hoje, acredito que esse acesso é bem maior".

 

Eliane avalia que o período militar deixou muitos resquícios, que afetam vários setores da sociedade brasileira, entre eles o jornalismo. "Se a sociedade fica fechada por vinte anos, isso cria uma nova realidade cultural, social e econômica, e conseqüentemente gera reflexos no exercício jornalístico".

 

Internet
A colunista da Folha ressalta que a internet é hoje uma ferramenta fundamental para o jornalista."[A web] criou uma relação entre o jornalista e seu interlocutor muito diferente do que jamais houve, porque antes escrevíamos e não existia retorno do leitor. Hoje você escreve e acontece uma espécie de 'bate-volta'. Existe uma interação muito maior entre jornalista e leitor, o que influencia até mesmo nas pautas".

Questionada quanto ao mercado de trabalho, disse acreditar que o jornalismo é uma profissão abrangente e que tem um mercado muito bom. "Existem diversos setores relacionados à comunicação dos quais os jornalistas esquecem. É preciso saber que não existem somente jornais, revistas e televisão. Um meio de comunicação que gosto muito é o rádio, porque alcança qualquer lugar".

 

Eliane comentou também sobre as diferenças existentes entre a imprensa nacional e a regional. "Na imprensa nacional você assina e se responsabiliza por aquilo que escreve perante a nação, e está sujeito a uma fiscalização mais forte da sociedade. No caso da imprensa regional, por exemplo, em uma cidadezinha do Nordeste uma pessoa muito rica compra os meios de comunicação locais e os utiliza para fazer campanha política. A imprensa regional, em algumas localidades do Brasil, comporta esse tipo de golpe político".

 

Na opinião da jornalista, um dos grandes problemas dos jornais regionais são os textos mal escritos. "Isso deve ser discutido pelos novos jornalistas que sairão das universidades, pois eles podem mudar esse cenário. A valorização da imprensa regional é uma questão de vontade, da própria região e dos jornalistas presentes nela, de fazer acontecer e de pôr a mão na massa".

 

Sobre o Congresso Nacional e o cenário político brasileiro, Eliane afirma: "Os jornalistas têm uma grande facilidade no acesso ao Congresso e tudo vira notícia. Precisamos de um foco mais abrangente, de saber o que se passa nas outras instâncias. É necessário que haja espaço para uma discussão sobre o país como um todo nos meios de comunicação". A jornalista lembra que na política, assim como na psicanálise, é comum as pessoas verbalizarem uma coisa e sentirem outra. "Por exemplo, é muito comum você ouvir que as pessoas detestam política e não entendem nada sobre o assunto. Mas a maioria sabe o que o Lula está fazendo, do que gosta e do que não gosta no presidente. Ou seja, apesar de as pessoas dizerem o contrário, estão cada vez mais politizadas".

Para a jornalista, é preciso perceber o Brasil como um país inserido no contexto internacional. "Atualmente, o mundo não se divide mais em países, e sim em blocos políticos e econômicos", lembra.

Sobre o episódio da fuga do banqueiro Salvatore Cacciola, em 2000 - o ex-dono do banco Marka foi recentemente detido em Mônaco, após sumiço de sete anos -. Eliane conta: "Eu estava na Venezuela quando li que o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, havia concedido liberdade provisória ao Cacciola. Escrevi uma coluna com o título 'Qual é a sua, Marco Aurélio?', e isso gerou polêmica durante um longo tempo. Os juristas mandavam artigos para o jornal e eu respondia, até que escreveram um artigo dizendo que os leigos, que não entendiam de política, não poderiam escrever em jornal. E eu finalizei essa discussão escrevendo um texto no qual dizia que nós, os leigos, não entendemos mesmo nada de política, porém, pagamos a conta".

* Alunos do 2º semestre de Jornalismo do Isca e repórteres da Agência Nova

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Editorialista do Estadão empolga estudantes


Paulo Silas* *

Diante de aplausos calorosos e olhares atentos do público, formado por estudantes, professores e visitantes, a editorialista do jornal O Estado de S. Paulo, Márcia Guerreiro, encerrou a 8ª Semana de Comunicação do Isca Faculdades na sexta-feira, 26, no auditório da instituição.


Em pouco mais de duas horas, a jornalista mostrou os principais procedimentos para a elaboração de uma boa reportagem e destacou a importância de sensibilizar o leitor. "O público é muito mais inteligente do que possamos imaginar", disse.

O anfiteatro tornou-se uma imensa sala de aula. "Márcia deu uma verdadeira aula de redação jornalística e, principalmente, de técnicas de reportagem, explicando como se deve fazer não só para redigir um texto, mas como colher as informações, investigar os fatos, e nunca se contentar com a versão de uma fonte, apenas", afirma Rodrigo Cezarin, estudante do 8º semestre de Jornalismo do Isca. 

Coordenadora do curso de Jornalismo, a professora Milena de Castro disse que a palestrante mostrou um diferencial em relação aos outros convidados. "Ela foi além. Teve a preocupação de mostrar algo a mais, colaborando muito com o sucesso do evento".

Com esse intuito, o de deixar uma contribuição aos estudantes de Jornalismo, Márcia justificou a escolha do tema. "O jovem jornalista sai da faculdade sem conhecer a rotina da redação de um grande jornal". Para ela, fugir da mesmice diante da concorrência eletrônica é primordial para um veículo impresso. Por isso, o jornalista deve usar a imaginação e a memória, pois precisa atender o leitor da melhor forma possível. "Não conte, mostre", sugeriu a jornalista, que nasceu em Limeira, formou-se na PUC-Campinas e trabalhou em jornais da região antes de se mudar para São Paulo.

Segundo Márcia, em suas matérias o repórter deve atentar a três princípios básicos: precisão, objetividade e credibilidade. "Assim, na produção de uma reportagem, é essencial a experiência, o estilo de vida e a bagagem cultural. Porque pessoas diferentes enxergam as coisas de maneira diferente".

Defendendo o uso parcimonioso do estilo literário, ela acredita que é possível escrever bons textos sem ser piegas. "Basta apenas descrever exatamente o que aconteceu, mas buscando um olhar diferente". Condenou, porém, a posição de jornalistas que apelam ao tom sensacionalista para noticiar uma tragédia. "Não se deve dramatizar aquilo que já é um drama", alertou, citando como exemplo o acidente com o avião da TAM.

* Estudante do 8º semestre de Jornalismo e repórter da Agência Nova

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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

TCC expõe dura rotina de mulher bóia-fria

Gustavo Nolasco e Mariana Antonella*

A vida de mulheres que trabalham em canaviais é o tema do trabalho de conclusão de curso de Célia Regina dos Santos, estudante de Ciências Sociais do Isca Faculdades. O trabalho foi debatido durante o primeiro colóquio do curso, realizado na última semana de setembro. Outro trabalho apresentado na ocasião foi o do estudante Filipe Zanuzzio Blanco, que aborda a questão das rádios comunitárias como mídias alternativas. Ouvidos pela reportagem da Agência Nova, Célia e Filipe explicam por que decidiram trabalhar com essas temáticas.

Sobre a realidade das mulheres bóias-frias, e o modo como conciliam o trabalho, a casa e os filhos, Célia diz que esta é uma "relação muito difícil e complicada". "É um cotidiano árduo, pois a mulher acorda às 4 da manhã para preparar o almoço para ela e o marido, que muitas vezes também é trabalhador rural. Se tem filhos, ainda de madrugada os prepara para irem à creche ou escola. Toma um ônibus às 6 horas até o canavial e começa o trabalho às 7 horas, permanecendo ali até às 16. Depois, pega os filhos e retorna a sua casa para terminar o serviço doméstico". 
Como o salário do bóia-fria é calculado através da quantidade de cana cortada, os homens, que possuem maior força física e resistência, acabam ganhando mais que as mulheres.
Os trabalhadores levam a própria comida para a lavoura, daí o nome "bóia-fria". A Usina Iracema e empreiteiras fornecem marmitas térmicas que conservam a temperatura do alimento por um determinado tempo, porém, alguns trabalhadores preferem não usá-las, alegando que com algum tempo de uso, por serem de plástico, deixam a comida com gosto ruim.
Sobre a inserção das mulheres nesse mercado, Célia diz que as trabalhadoras se vêem na obrigação de ajudar seus maridos, e como não possuem um nível de escolaridade que as permitam ingressar em outra profissão, acabam procurando o trabalho rural. "Entre as entrevistas que fiz com as bóias-frias, vale lembrar a de uma senhora que trabalhava desde os dez anos de idade como bóia-fria. Ela me contou que desde que era recém-nascida, os pais dela já trabalhavam no campo e a levavam para o local. Ou seja, ela passou toda a vida em contato com o campo". Mais tarde, a mulher teve a mesma atitude com os filhos. "Essa história exemplifica como o trabalho rural perpassa as gerações de uma mesma família".
Célia procurou pesquisar as condições psicológicas das mulheres, a sociabilidade e o preconceito que sofrem por serem bóias-frias. "Também tento criar um parâmetro entre o passado e o presente, visando entender as mudanças que ocorreram na profissão. Tento levantar questões como a dificuldade nesse tipo de trabalho, se realmente vale a pena cortar cana para sobreviver, ou se essa profissão já se tornou um hábito na vida dessas mulheres".
Mídias alternativas
O aluno Filipe Blanco, por sua vez, escolheu discutir o papel das rádios comunitárias em seu trabalho de conclusão de curso. "Escolhi uma rádio comunitária que me daria respaldo para conscientizar as pessoas politicamente, o que não conseguiria numa rádio privada". Segundo ele, apesar do governo "atacar" as mídias alternativas, o movimento social em favor deste segmento está crescendo. "Espero atingir as camadas mais exploradas da população e inflamá-las politicamente para que adquiram um pensamento crítico em relação às instituições. E também que elas possam se organizar em movimentos sociais e combater a tragédia que é o capitalismo".
Felipe observa que seu estudo foi realizado a partir do ponto de vista dos receptores, ou seja, dos ouvintes de uma determinada rádio. "A primeira questão que levantei foi se as mídias convencionais são totalizantes, e concluí que não, pois os receptores têm uma visão diferente e heterogênea em relação a elas", observa.

* Estudantes do 2º semestre de Jornalismo do Isca Faculdades e repórteres da Agência Nova

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Itaú Cultural seleciona projeto de docente do Isca

DA REDAÇÃO *

A professora Adriana Pessatte Azzolino, do curso de Comunicação Social do Isca Faculdades, teve um projeto selecionado no programa Rumos de Jornalismo, promovido pelo Itaú Cultural. Noventa e oito faculdades de todo o país inscreveram 238 trabalhos, dos quais 26 foram selecionados.

"Formação do estudante em Jornalismo Cultural: trabalhos experimentais e sensibilização estética do jovem universitário com base na reflexão sobre imagem, novas tecnologias e novas linguagens" é o título do projeto apresentado por Adriana. Graduada em Comunicação Social e Ciências Sociais, a professora é especialista em História e Cultura pela Unimep, tem mestrado em Educação pela Unicamp e doutorado em Comunicação pela ECA-USP.
Talentos
O objetivo do programa Jornalismo Cultural 2007/2008 é incentivar a criação artística e intelectual brasileira. Ele mapeia talentos nas diversas áreas de expressão e do conhecimento, apóia a formação dos contemplados e promove a articulação e conexão entre eles e os diversos agentes envolvidos - pesquisadores, jornalistas, formadores de opinião, curadores, artistas, técnicos. Além disso, emprega recursos para a produção e difusão de suas obras.
De março a novembro de 2008 os estudantes selecionados receberão um conjunto de 20 livros, entre outros produtos culturais, participarão semanalmente de um exclusivo laboratório online de jornalismo cultural - atividade pela qual receberão uma bolsa mensal de R$ 550, em valores brutos. Durante esse período, e com orientação do editor do laboratório, cada contemplado criará uma pauta - a ser elaborada no primeiro semestre, quando receberá um bônus de R$ 500 para despesas de produção da matéria. Na entrega dessa reportagem, receberá R$ 900 pelo licenciamento de direitos de publicação ou exibição. As matérias dos selecionados não serão publicadas individualmente, mas no final do ano a instituição lançará um livro, acompanhado de CD, que apresentará todas as matérias produzidas pelos selecionados durante 2008. 
Já para os professores contemplados há um pagamento de R$ 500 pelos direitos autorais de publicação dos trabalhos selecionados no site do Itaú Cultural. Também receberão 30 livros, assinaturas de revistas de cultura, além da participação de um exclusivo Fórum Virtual mensal sobre jornalismo cultural - de março a novembro de 2008, a cada mês com um convidado de renome na área - cujo conteúdo será editado e integrado a um produto com todos os trabalhos desenvolvidos pelos selecionados nas duas carteiras, mediante licenciamento de R$1.100,00, entre outros prêmios. 
A divulgação dos selecionados, os seus trabalhos e os integrantes da comissão pode ser encontrada no site www.itaucultural.org.br/rumos2007. 

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O homem-jambo

Juliano Schiavo *

Às vezes, o simples ato de olhar pela janela conduz a reflexões. Em frente ao mundo que se abre diante do olhar, há diversos elementos que servem para instigar o pensamento.

Ao observar um pé de jambo, não pude deixar de pensar a respeito dessa planta. O jambeiro não é uma árvore brasileira; originou-se no sudeste da Ásia. Foi trazido ao país pelos portugueses e vive mais de cem anos. Na época da floração, costuma exalar um perfume adocicado. É conhecido pelos ingleses como rose-apple por produzir uma fruta amarelada, com leve gosto adocicado e aroma de rosas.
O fruto engana quem nunca teve a oportunidade de prová-lo. Parece consistente e envolvente com seu perfume de rosas. Parece carnudo e saboroso. Brinca com os olhos humanos - que se deixam enganar com freqüência -, e de forma marota, fisga a atenção.
Lá se vão pedras, pedaços de galhos, chinelos em uma só direção: a do jambo maduro. Várias tentativas - o jambeiro, muitas vezes, é alto - e se tem o primeiro acerto. A gravidade faz seu papel e atrai ao chão o pequeno fruto que, em contato com o solo, muitas vezes se espatifa e acaba com a mentira. Espatifado no chão, revela que é vazio, sem consistência. Por dentro, apenas uma semente. 
É comum algumas pessoas se passarem por jambo. Aparentam ter consistência, sumo, substância, mas no fundo são ocas, vazias, apenas um vácuo de insensatez e inverdades. Pregam uma coisa, fazem outra. Mostram-se fortes, mas são fracas. Assim como o jambo, que aparenta ser um fruto carnudo, mas é, na verdade, oco.
É importante aprender a diferenciar as pessoas não pelo que falam, mas pelo que fazem, pois o discurso é sempre belo, assim como o perfume do jambo é sempre doce. Por isso, a cautela com as pessoas-jambo é fundamental.
 
jssjuliano@yahoo.com.br

* Estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca Faculdades

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terça-feira, 23 de outubro de 2007

Tropa de Elite: o debate na imprensa

Seleção: Daíza Lacerda *

A torcida da caveira talvez seja mais um sintoma da crise moral e institucional que ronda a segurança pública no Brasil. Há algo de profundamente errado em uma sociedade que só aplaude sua polícia quando ela se comporta como o bandido.

Jerônimo Teixeira, Veja, 06/10/07

As milhares de cópias piratas buscadas com fome, as platéias sideradas quase sexualmente pelo sangue mostram que nós somos os personagens de um país sem enredo, que estamos famintos de que algo aconteça, de que alguma forma de justiça se faça, de que alguma organização apareça, de que não haja só aquela polícia podre que rouba peças de carros da PM para vender, de oficiais pegando jabá do bicho, de que haja heróis incorruptíveis e machos vingadores de nossa insegurança. (...)

As multidões vão ver esse filme porque querem que ele seja uma resposta.

Não interessa se "Tropa de elite" é um filme ruim ou bom. O que conta é a fome de "solução" que ele desperta em nós.

Arnaldo Jabor, O Globo, 09/10/07

 

 

Bem pior do que aplaudir as torturas praticadas por Wagner Moura em Tropa de Elite é aplaudir as torturas praticadas em nome de Renan Calheiros no Senado. É o que está acontecendo comigo. Eu sei que é errado, mas aplaudo toda vez que, em sua desavergonhada defesa de Renan Calheiros, Ideli Salvatti aparece na TV como se estivesse com um saco plástico enfiado na cabeça, sem ar, com a jugular inflada. E aplaudo toda vez que Aloizio Mercadante esperneia como se estivesse sendo ameaçado com um cabo de vassoura.

Diogo Mainardi, Veja, 14/10/07

 

 

A repercussão emotiva a respeito do filme, afinal, não tem a ver apenas com ele. Tem a ver com um momento histórico em que a lenta melhora do Brasil é insuficiente para reduzir de modo expressivo o estoque da dívida social, da imensa carência de renda e justiça, de problemas como a violência urbana. (...)

Enquanto isso, os políticos de todos os partidos não param de sugerir que uma propina justifica a outra, tal como os personagens de Tropa de Elite. No mundo de Renan Calheiros, os extremos afundam juntos.

Daniel Piza, Estadão, 14/10/07

 

 

Essa maneira de entender o social oferece a todos uma compensação substancial: se a lei não é a referência comum, podemos ser assaltados nos faróis, mas também podemos praticar cada tipo de mediocridade moral e de ilegalidade (...).

[Sobre a justificativa da pirataria] Havia o estilo "eu não serei o único otário", que, grosso modo, diz assim: "Se Renan Calheiros é presidente do Senado, eu posso comprar um DVD pirata". E havia o estilo "está na hora de mudar", em que um ato que nega a propriedade intelectual é justificado diretamente pela injustiça social dominante. Valia tudo, salvo o óbvio: pela lei, piratear é crime. (...)

Se quiser pensar e viver a realidade nacional um pouco além dos limites impostos pela consciência culpada, não perca "Tropa de Elite".

Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo, 11/10/07

 

 

A missão que Tropa de Elite cumpre agora foi iniciada por Cidade de Deus, que desmantelou os estereótipos do criminoso coitado e do bandido camarada (figuras que, logo a seguir, Carandiru reinstauraria com veemência). (...)

O impacto de Tropa de Elite mostra com clareza que o cinema nacional precisa de uma nova sociologia. A platéia sabe que escolher entre uma polícia corrupta e uma polícia violenta não é escolha. Mas dá sinais de que não quer mais ver a bandidagem mitificada.

Isabela Boscov, Veja, 12/10/07

 

 

O que os "playboys" do relativismo rejeitam é a evocação da responsabilidade dos consumidores de droga na tragédia social brasileira. (...)

[A ética entre o personagem Matias e o capitão Nascimento]  revela não a convivência entre as diferenças, mas a conivência com o crime de uma franja da sociedade que pretende, a um só tempo, ser beneficiária de todas as vantagens do estado de direito e de todas as transgressões da delinqüência. (...)

Quem consome droga ilícita põe uma arma na mão de uma criança. É simples. É fato. É objetivo. (...)

O filme submete a um justo ridículo a sociologia vagabunda que tenta ver a polícia e o bandido como lados opostos (às vezes unidos), mas de idêntica legitimidade, de um conflito inerente ao estado burguês.

Reinaldo Azevedo, Veja, 12/10/07

* Daíza Lacerda é estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca e editora da Agência Nova

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Polícia para quem precisa

Daíza Lacerda *

Quase todo mundo já viu (o ibope estima 11 milhões de espectadores de cópias piratas), e a discussão em torno da cruzada do capitão Nascimento está longe de acabar.
Depois do documentário
 Ônibus 174 (que mostrou "a sociedade que estamos construindo"), o diretor José Padilha revela sem dó a crueza da guerra urbana nos morros do Rio de Janeiro. Alguma novidade? Ficção? Realidade.

Tropa de Elite, que tem entre os roteiristas Bráulio Mantovani - sim, o mesmo de Cidade de Deus - não traz nada menos do que já se conhece: a cumplicidade de policiais com o tráfico, que é sustentado pela classe média consumidora e combatido com violência pelo Bope (Batalhão de Operações Especiais, da PM no Rio de Janeiro). Na tênue linha que separa a paz e a guerra no morro, o idealismo e a corrupção, o filme desmistifica as "boas intenções" tanto das autoridades como dos bandidos.
Inspirado no livro
 Elite da Tropa, escrito pelos policiais Rodrigo Pimentel e André Batista, e pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, o filme incomoda pela violência, mas traz uma certa sensação de alívio pela integridade do Bope em comparação aos corruptos da PM "convencional". Mostra uma atitude, de fato, para o bem ou para o mal, fazendo o Batalhão viver seus dias de glória e ser ovacionado por onde passa. Por essas e outras, é amar ou odiar.
Em um país com tanta corrupção e impunidade, a violência se justifica? Em pesquisa da Vox Populi encomendada pela revista
 Veja, 72% dos entrevistados disseram que os traficantes do filme são tratados como merecem. Em contrapartida, 51% não concordam com a tortura como meio de se obter confissões. Isso em relação aos bandidos dos morros. Mas quem não sentiu um mínimo de satisfação na cena do treinamento, em que um policial corrupto é humilhado?
A questão é controversa. Um policial militar ganha cerca de R$ 800; se for do Bope, R$ 1.300, em média. Com os salários e as condições de trabalho que tem, ou o oficial é movido pelo idealismo ou pela corrupção. Esta é uma das causas do círculo vicioso que envolve a [falta de] segurança no país.
Mas como a responsabilidade é também da sociedade, a abordagem fílmica da classe média que sustenta o tráfico e a violência é pertinente. Na lei do capitalismo, só sobrevive o que tem mercado, e assim é o tráfico. E quem não é nem traficante, nem usuário e nem policial, se limita à indignação diante da trágica realidade social.
Em cada trabalho de Padilha é possível perceber uma ótica diferente das conseqüências de uma sociedade inerte, sobretudo as autoridades - lembrando os ataques do PCC, em que cidadãos de vários estados ficaram esperando por quem os defendesse. Em
Ônibus 174, a história do bandido Sandro, vítima do descaso e da miséria - gerida por quem? Em Tropa de Elite, a realidade da polícia em duas vertentes: a dos corruptos do "sistema" e a dos honestos e justiceiros. 
Então, quem é o bandido e quem é o mocinho? Ainda buscamos a resposta, mas é certo que os brasileiros estão cada vez mais intolerantes com a corrupção e a falta de segurança. No desespero, a violência combatida com violência passa a ser aceita, mas não se legitima, é claro.
Depois do livro
 Rota 66, de Caco Barcellos, muita gente deixou de ver a polícia com os mesmos olhos - pelo menos no que se refere aos batalhões especiais para as guerras nos morros e nas ruas. Na obra, Caco investigou a polícia que atira primeiro e pergunta depois, e as vítimas inocentes desses abusos. Já em Abusado, detalhou o funcionamento do tráfico na favela, e a influência e poder que envolve. Tropa de Elitetambém aborda o abuso: seja quem for, se delatar algum traficante, "já era". E depois a mãe vai aos prantos cobrar do capitão Nascimento o direito de enterrar o filho.
Caso de polícia ou de política, que a discussão não se abrande - pelo menos até que outra bomba estoure novamente, seja por meio da violência do bandido ou do policial, ou por outra obra que nos convide a aceitar que o caos social existe e grita, esperneia por soluções em um país de política desavergonhada.

* Daíza Lacerda é estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca e editora da Agência Nova

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sexta-feira, 19 de outubro de 2007

ARTIGO - Vítimas do tecnoestresse


Juliano Schiavo *

Diante de uma tela de televisão, um controle remoto na mão que não funciona corretamente. Os dedos, já tensos, passam a apertar os botões freneticamente, cada vez com mais força. Daí por diante, xingos, brados, raiva. 

O mesmo vale quando o computador - onde estão todos os seus arquivos pessoais - decide não ligar. Gritos, (m)urros, socos, uma explosão de ódio e fúria por causa da maldita máquina que não obedece.
A tecnologia que facilita a vida ? por exemplo, permitindo ao cidadão pagar suas contas em casa e escapar das monstruosas filas bancárias -, também tem se transformado em fator de estresse.
Quem nunca se pegou xingando um aparelho eletroeletrônico que decidiu não obedecer às suas ordens, que aperte o primeiro botão de play que aparecer na frente e continue cultivando essa paciência invejada. A tecnologia, que por alguns momentos é aliada, pode se transformar no vetor de sérias complicações da saúde.
Insônia, dor de cabeça, dor de estômago, problemas gastrointestinais, depressão, enfim, uma série de fatores são frutos do tecnoestresse e da vida corrida.
Na ânsia involuntária de acompanhar a rapidez do mundo, deixa-se de lado o ritmo biológico e segue-se, maquinalmente, uma vida regada pela pressa insensata. Não se tem tempo para o almoço ? que se converteu apenas numa pequena fração de tempo para repor energias no corpo. Não se tem tempo para descansar ? há cada vez mais tarefas, cuja tecnologia permite realizá-las de maneira espantosamente rápida, mas não espantosamente relaxante. Faz-se muito em pouco tempo e a todo momento. 
A essência humana moderna foi soldada num corpo de carne e osso, que funciona em ritmo acelerado. A fome, o sono, a vontade de sorrir, de ficar solitário, tudo foi confinado por grades que emanam um tic-tac sem fim. 
Conclui-se que a tecnologia, pensada para trazer conforto, gera desconforto. Feliz daquele que não se contamina com o estresse, não sofre com ansiedade, não faz de sua vida um ponteiro. Esse aprendeu a viver e a desfrutar da efemeridade das situações. Esse aprendeu a valorizar o ritmo biológico porque sabe que é um ser humano e não uma máquina.
O difícil é descobrir tudo isso quando a vida parece guiada por ponteiros acelerados e invisíveis. Quem não se aliena é que será chamado de louco.

* Estudante do 6o semestre de Jornalismo do Isca Faculdades

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Palavras da língua portuguesa perderão acento

Lilian Geraldini *

O processo de unificação da língua portuguesa está em andamento e os oito países que usam esse idioma - Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Brasil - seguirão o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em Lisboa. 

O acordo esperava pela aceitação de pelo menos três desses países. O Brasil foi o primeiro a ratificar a adesão, assim como Cabo Verde e recentemente, São Tomé e Príncipe. Portanto, ao que tudo indica, até o final deste ano todos os "irmãos de língua portuguesa" escreverão da mesma maneira.
O acordo foi proposto com o objetivo de contribuir para a difusão do idioma no exterior. O deputado José Lourenço (PMDB- BA), que nasceu em Portugal, sugeriu a unificação dos livros didáticos de ensino fundamental nas disciplinas português, matemática e ciências, como forma de facilitar o aprendizado.
Embora se modifique a ortografia, a pronúncia de cada nação será mantida. Mesmo assim, teremos de nos habituar, por exemplo, com o fato de que os vocábulos paroxítonos terminados em "o" duplo - como enjôo e vôo - serão agora escritos sem o acento circunflexo (enjoo, voo). E ainda teremos de nos lembrar de que "conseqüência" perderá o trema, já que este será abolido definitivamente. Além disso, o alfabeto terá 26 letras, e não mais 23, pois serão incorporados o "w", o "y" e o "k". 
Para a professora Élina Barbosa, que ensina língua portuguesa e literatura para estudantes de ensino médio em Piracicaba, desde que se mantenha a significação das palavras, as mudanças serão bem-vindas, visto que têm o propósito de auxiliar no aprendizado. O problema, segundo ela, é que nem todas as pessoas vão se acostumar com essa nova maneira de escrever.
"Se pensarmos em termos de globalização, o novo Acordo Ortográfico será ótimo. O único problema é que no Brasil as mudanças são pouco divulgadas. Será que todos terão acesso a esse novo modelo", questiona a analista contábil Luzia Turrioni, 34, acrescentando: "E as crianças que  passaram do processo de alfabetização? Elas terão professores habilitados para ensiná-las novamente?". 
Diretor da Rádio Difusora de Piracicaba, o jornalista Marcelo Bongagna, 39, também acredita que as mudanças serão benéficas, e defende que deveriam ocorrer pelo menos a cada década. "É preciso adequar a língua portuguesa à modernidade. Com relação ao ensino não vejo problema. Não creio que uma mudança na família das palavras provoque dificuldade no aprendizado". 
Informática
 O bacharel em Ciências da Computação, Everton Nunes, 26, acredita que para sua profissão o acordo "será útil". Ele ressalta que na informática o uso do hífen e do trema, por exemplo, dificulta a linguagem da programação. "É preciso fazer uma base de dados específica para vocábulos em que é necessário o uso desses auxiliares".
Para alguns, porém, a reforma não tem grande utilidade. É o caso da ex-professora universitária Maria Luiza de Almeida Leme, que atualmente trabalha no ensino médio. Ela avalia a situação como "ilógica" e acredita que não há base científica para essa reforma da língua, levando em conta que o entendimento do dialeto é possível em qualquer uma das nações que utilizam o português como língua mãe. A professora critica a decisão do governo: "Não acrescentará nada ao aprendizado dos alunos, além do que o custo com a reformulação e reimpressão de livros e dicionários será altíssimo".   

* Estudante do 2o semestre de Jornalismo da Isca Faculdades

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