Juliano Schiavo *
Valinhos, cidade do interior paulista, foi palco de um teatro do horror: Adelaide Martins, aposentada, foi a atriz principal que ganhou notoriedade "sem o glamour dos astros de cinema" mas, no alto de suas oito décadas de experiência, atuou na peça que pode receber o nome "Descaso".
Adelaide foi mantida em cárcere privado pelo próprio neto, de 35 anos. Ele ficava, segundo a polícia, com cerca de R$ 7.000 mensais de três aposentadorias recebidas pela idosa.
Foi libertada dia 6 de setembro, um dia antes de comemorarmos a "Independência do Brasil". Liberdade essa que não significa necessariamente reverência à vida.
Ela sai de uma prisão domiciliar para entrar numa prisão social, cujas grades são edificadas pela ausência de respeito ao próximo.
O "Descaso" é uma peça tão recorrente na sociedade, é algo cíclico, estampado nas manchetes dos jornais. Repete-se diariamente com pequenas alterações e personagens. Enche a todos de revolta, mas essa é passageira, tal qual uma enxaqueca.
O índio pataxó, que dormia na calçada, foi queimado vivo por cinco adolescentes da classe média. Foi um ator, que sentiu na carne o que é participar dessa peça teatral.
A doméstica espancada no Rio de Janeiro, confundida com uma prostituta - o que não é justificativa para tal atrocidade - também participou dessa peça. Hematomas, tonturas, dores de cabeça foram o presente pela sua atuação. João Hélio, 6 anos, também recebeu os holofotes. Foi arrastado e dilacerado por 14 ruas de quatro bairros no Rio.
Esses são alguns dos atores do "Descaso" que, sem pedir a ninguém, atuaram nesse teatro onde as vidas humanas são fantoches a bel prazer da violência.
O pior de tudo é que essa peça não é escrita a uma única mão e também não tem um único diretor. Ela é escrita por todos, em menor ou maior grau de participação, mas todos têm sua parcela de culpa.
A omissão, a hipocrisia, o desdém pelo próximo, enfim, uma série de atitudes, que somadas, abrem as cortinas e nos dão esse show sanguinolento chamado "Descaso". Infelizmente os diretores não se tocaram da importância que tem diante dos fatos. É uma vergonha.
Juliano Schiavo, 20, é estudante de jornalismo do Isca Faculdades
E-mail: jssjuliano@yahoo.com.br
