sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Motorista de Brotas aproveita lixo para ajudar ONG


Analúcia Neves *

"Se houvesse boa vontade do poder público, nenhuma cidade precisaria de um espaço para aterro sanitário. Diariamente enterramos dinheiro, e se todos fizessem algo pela natureza, o futuro dos nossos netos estaria garantido".

A afirmação é de Sérgio Roberto do Amaral Menezes, também conhecido como Carioca, 63, casado, funcionário público. Há nove anos ele dirige o caminhão que recolhe o lixo na cidade de Brotas, interior de São Paulo.
Quando começou a trabalhar na coleta, Carioca entendeu que o lixo tem a ver com a vida de todo mundo, e isso o levou a refletir sobre o valor de tudo o que é jogado fora.
Nos primeiros dias ficou impressionado com a quantidade de eletrodomésticos (ferros elétricos, tanquinhos, liquidificadores) que são descartados. Percebeu que, com alguns poucos reparos, poderiam ser novamente utilizados. Foi então que surgiu a idéia de consertar e doar os equipamentos ao Voluntários do Câncer, ONG que ajuda pessoas de baixa renda, vítimas da doença.
Os aparelhos são levados para a casa de Carioca. Lá, as peças boas são aproveitadas e as rejeitadas, doadas para catadores de lixo, que vendem o material para sucatas. 
Para Carioca, consciência ecológica não depende só do governo. É uma questão de educação. Ele sabe da importância do seu gesto em favor do meio ambiente. "A natureza pede muito pouco do ser humano. Basta mudar alguns hábitos. Faço o que posso e acredito que a reciclagem pode dar emprego para muita gente". 
A cidade, lembra o motorista de caminhão, acomoda os dejetos no aterro sanitário municipal.
Os catadores de Brotas só valorizam materiais como papelão, garrafas pet, alumínio e cobre. Outros recicláveis são deixados de lado, e enterrados. Isso acontece por falta de uma cooperativa e de esclarecimento, observa Carioca. "Boa administração por parte do poder público, prestar atenção na TV quando o assunto é ecologia, controlar o lixo doméstico e mudar pequenos hábitos dentro de casa podem fazer a diferença".

Assistência
A vice-presidente da ONG Voluntários do Câncer de Brotas, Rita Brino Cassaro, explica que o grupo dá toda a assistência aos doentes, inclusive para exames. A renda da entidade vem principalmente da solidariedade da população e dos voluntários.
Rita contou que além dos utensílios retirados do lixo, as pessoas doam aparelhos quebrados para serem consertados por Carioca. Ele também sugere os preços de venda, e dificilmente alguém reclama. A procura é grande. "Ele [Carioca] nos ajuda muito. Além de ser exemplo de desenvolvimento sustentável, tira o lixo do meio ambiente, presta ajuda voluntária e pratica cidadania em favor da população carente", destaca a vice-presidente.
Na opinião da mulher do motorista, Virgínia Menezes, não é preciso curso universitário para se ter consciência ecológica. Seu marido, como muitos cidadãos brasileiros, não pôde concluir os estudos, pois precisou começar a trabalhar cedo para completar a renda familiar. "Ele é um homem simples, solidário e curioso. Se interessa por tudo o que está em acordo com seus princípios. Tenho certeza de que seus valores são a melhor herança que nossos três filhos receberão do pai", afirma.

* Originalmente publicada no jornal laboratório Em Foco, do curso de Jornalismo do Isca Faculdades 

* Aluna do 6º Semestre de Jornalismo (analunevess@yahoo.com.br)