Rafael Sereno *
Em agosto do ano passado, a sugestão ventilada no Planalto de convocar uma assembléia, nos moldes da Constituinte de 88, para discutir a reforma política, foi crucificada pela mídia e pelos partidos de oposição, antes mesmo de se cogitá-la efetivamente.
A idéia de chamar a sociedade civil para resolver esta questão corrobora a tese de que há falhas estruturais no sistema político do País. Afinal, a população vai às urnas justamente para delegar a algumas pessoas a tarefa de representá-los na hora de direcionar ações coletivas. Mas, a cada ano - e escândalo - que passa, parece que nem deputados nem senadores merecem mais a confiança do brasileiro.
O caso Renan mostrou, descaradamente, o quanto a classe política está distante da população. Após três meses de paralisação nas votações, cenas deprimentes de acusações, justificativas incoerentes e mentirosas do alagoano sobre a compra e venda de seu rebanho de gado, os senadores optaram por uma sessão secreta para discutir seu futuro, mutilando a transparência constitucional que o caso exigia.
Não bastasse a Casa ao lado ter sido invadida por mensaleiros, sanguessugas e outros bichos mais, o Senado foi além. Mesmo com farta documentação incorreta e provas coletadas pela mídia e pela Polícia Federal, os senadores inocentaram Renan e atiraram às moscas o pouco de credibilidade que restava à classe política. Não por acaso, os senhores preparam-se agora para votar a CPMF, mais um imposto a atravancar a carga tributária do País.
Percamos a esperança. Não será deles que virá a reforma política. Todos os itens estão intimamente relacionados ao futuro de cada um. Só o poder lhes interessa. A saída mais honrosa seria chamar a sociedade para discutir a reforma. É um tiro no coração republicano do País, mas se tantos já foram dados, o brasileiro tem o direito de apertar esse gatilho.
