Juliano Schiavo *
A beleza, tão efêmera, conquista os olhos do consumidor, que, encantado, compra o pacotinho para saborear os morangos. Ao abri-lo, uma surpresa. Por debaixo da beleza há um falso fruto, raquítico, feio, amassado. Pequeno, muitas vezes mofado, seu destino não é tocar os lábios e nem ser degustado: segue para o lixo.
Essa prática vigente em nosso país serve para reflexão. Resume a idéia da ?ética do morango?, ou seja, aquela que vende uma beleza enganosa, que ludibria os olhos e lucra com algo que, se fosse visto de perto, ninguém compraria.
Nas relações pessoais, há muitos que se utilizam desse artifício. Enganam e sabem lograr com um conjunto de palavras, sorrisos e maleabilidades corporais o seu próximo. Sua ética é vender uma coisa e fazer outra.
Articulistas, jornalistas, vendedores, políticos, ambulantes, desempregados, uma gama "seleta" de pessoas age de acordo com a ética do morango. Pregam uma coisa e fazem outra. É a hipocrisia tomando lugar da verdade e contagiando muitos: se ele engana e lucra com isso, por que eu não posso enganar e lucrar com o próximo também?
Há de se levar em consideração que, ao agir dessa forma ? enganar para tirar proveito ? fere-se um dos princípios básicos da boa conduta, que neste caso é a honestidade. A condição de ser honesto, infelizmente, é um valor em extinção e necessita urgentemente renascer dos escombros das relações pessoais.
Longe de lições de moral: honestidade é prêmio que se conquista no dia a dia. O maior lucro advindo não é material e não se contabiliza. Vem por meio da consciência limpa. Vale a pena ser honesto e se empenhar em transmitir essa idéia, pois a podridão (cedo ou tarde) vem à tona e demonstra que, por detrás dos belos morangos, há aqueles que estão mofados e precisam ser eliminados.

