quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Emo... Quê?! Emo... Quem?! Emo... Onde?!

Alex Contin/Denis Martins *

Um novo modo de se vestir, de se comportar e de sentir está chamando atenção nas ruas de Limeira. São os emos. Quem nunca ouviu falar dessa nova tribo que está presente em todos os meios freqüentados por adolescentes, desde shoppings a bares, escolas e clubes? 

O visual é sempre alvo de olhares curiosos, e muitas vezes repreensivos. Os emos lembram os punks e alguns até dizem que podem ter se inspirado nessa tribo de origem inglesa. As cores e acessórios, contudo, são diferentes.
Cabelo curto e de cores como roxo, verde, preto e rosa. Franjas que cobrem metade do rosto ou somente um olho. Roupas de tons escuros contrastando com cores alegres e vivas. Acessórios extravagantes e maquiagem nos olhos. Camisetas justas e calças caídas, apesar do cinto de rebite. Nos pés, All Star e Mad Rats quadriculados, de estrela ou de oncinha. Caso vir uma pessoa com essas características, não estranhe: é um emo.
Segundo a produtora e consultora de moda do Senac, Renata Santucci, 30, "esta é a nova cara dos jovens de hoje. E como são adolescentes, têm o direito de se expressar". E complementa: "Esse modo de se vestir é visto pela sociedade como um estilo de vida, quando, na verdade, é apenas uma maneira [dos jovens] demonstrarem o seu estado de espírito".
Rafael de Andrade Marinho, 14, estudante da 8ª série em uma escola no centro de Limeira, é um exemplo perfeito. Mesmo na escola ele não abandona o visual. Rafael tinha o cabelo verde, cor que rendeu o apelido de "Alface" entre os amigos. A camiseta é a do menor tamanho disponível, e roxa. A calça, apesar de estar com um cinto branco de rebites, fica bem abaixo da cintura, exibindo a cueca. Um piercing na língua, outro no canto direito da boca e mais um no nariz completam o visual.
Rafael afirma que sua mãe não se incomodou com o novo estilo. O único veto é à tatuagem. ?Ela diz que uma tatuagem dificulta na hora de conseguir emprego?. Quando questionado sobre a opinião da mãe a respeito da cor de seu cabelo, conta à reportagem do Em Foco: "Ela não ligou. Pintou o cabelo de vermelho também!"

Sexualidade e preconceito

Muitos emos são, quanto à sexualidade, liberais. Não têm nenhum tipo de constrangimento em dizer que já beijaram pessoas do mesmo sexo. É o caso de Nilton Scherer e Wesley Robert, ambos de 18 anos. 
Wesley conta: "Quando eu me vestia igual a todo mundo, eu não beijava ninguém, ninguém olhava para mim. Agora eu beijo muitas meninas, mas os que mais me procuram são meninos. Já beijei uns 45. Quando eu vou aos bares, nem preciso levar dinheiro. Todos me oferecem bebida".
Nilton pede para anotar: "Todo emo diz que não é emo". Muitos preferem não definir seu estilo devido ao preconceito que usualmente sofrem ao confessar a opção. "A sociedade, de forma geral, não está preparada para receber pessoas com estilos diferentes, as novas tribos", analisa a produtora Renata.
Um estudante que preferiu não se identificar fez o seguinte comentário: "Os emos só se fazem de 'santinhos'. Na verdade são todos rebeldes e tristes, gostam de ficar isolados e vivem depressivos".
Grande parte do preconceito contra emos decorre do modo como se vestem. Há, por exemplo, estabelecimentos comerciais que não aceitam emos por considerar que "assustam a clientela".
É importante ressaltar que muitos adolescentes se vestem como emos mas, na verdade, não o são. Há pessoas que aderem a esse estilo só porque se identificam com o tipo de roupa. Não há, portanto, como conhecer um emo apenas pela aparência.
Na internet, os emos são identificados através das fotos tristes, geralmente monocromáticas e românticas, tiradas de cima para baixo. Exibem olhares baixos ou rostos sem expressão alguma. No site de relacionamentos orkut existem várias comunidades sobre a tribo. Algumas incitam a violência e outras provocam risos, como a "Hitler era emo". 

Colaborou: Fernanda Vernier

Da cabeça aos pés

O ponto de vendas de roupas e acessórios para os adolescentes emos é a loja Sintonia, no centro da cidade. Dirceu Aparecido Sass, proprietário do estabelecimento, começou vendendo camisetas com frases românticas, ecológicas e humorísticas. Depois, com o avanço da moda, seus clientes passaram a requisitar camisetas de bandas como Backstreet Boys, Nirvana e Raul Seixas. 
Quando mudou de endereço, da rua Tiradentes para a Treze de Maio, Dirceu já vendia roupas e acessórios para os estilos skate e hip hop. 
Daiane Caroline Fernandes, 18, trabalha como vendedora na loja há um ano e meio e sobre o assunto "emos" ela entende muito. Daiane observa que, na cidade, o estilo apareceu há dois anos. "Durante muito tempo teve boa saída, mas nos últimos três meses as vendas para esse grupo tiveram uma queda". A vendedora atribui esse declínio ao preconceito que os emos enfrentam. 
(A. C. e D.M.)

Músicas e sentimentos

O termo "emo" teve origem na década de 80, quando surgiu uma nova vertente do hardcore, o "emocore", ou "emotional hardcore". Diferente do punk e do hardcore tradicional, que apresentam letras com conteúdo político e anti-social, o emocore tem a mesma batida, mas letras introspectivas. Como diz a vendedora Daiane Fernandes, da loja Sintonia, são músicas "melódicas e depressivas". 
Pode-se dizer que o estilo é o punk modificado pelos emos. Acrescentaram novas características sem se preocupar com a opinião da sociedade, pois como eles dizem, "o que queremos é causar".
As bandas mais famosas são Simple Plan, Emo, NXZero, Dance of Days e no Brasil, Fresno. Suas letras fazem referência a solidão, amor e abandono. Daiane afirma que a música mais ouvida é A carta, do grupo brasileiro Fresno. A letra diz: "se minha vida acabar assim, / tu não vais sentir falta de mim/ Mas por que você sentiria? / Você nunca agiu assim."

Estilo de vida ou provocação?
Emos dividem opiniões nas escolas

Juliana Silva juliana_ap_silva@hotmail.com

O vestuário e o comportamento dos emos não têm espaço na escola estadual Professor Antônio Perches Lordelo, considerada uma das mais rígidas de Limeira. Segundo a vice-diretora Ana Maria Landgraf de Carvalho, os alunos aderem à disciplina imposta: "Quando a mãe vem pedir vaga, sabe o que ela fala? 'Quero colocar meu filho aqui porque é rígido'".
Na escola estadual Ely de Almeida Campos o procedimento é diferente. A coordenadora Maria Aparecida de Almeida Camargo afirma que lá existem muitos estudantes emos e que não ocorre preconceito entre eles e os outros grupos. O Ely atende estudantes de 136 bairros. Além dos emos também há um grande número de adeptos do rock e do hip hop, entre outras tribos.
A escola desenvolve um trabalho contra o preconceito que tem início no ensino fundamental. "Os emos são mais sensíveis, mais frágeis, dão valor ao lado sentimental. Muitas vezes a sociedade tem preconceito apenas por eles terem um estilo diferente", diz a coordenadora. Segundo Maria Aparecida, esse estilo reflete as culturas existentes no mundo. "Assim como a cultura do rock, do pagode, do hip hop, a cultura emo é mais uma. Aqueles que não sabem por que estão aqui e não se conhecem tão bem vão formando grupos", explica.
Já a vice-diretora do Perches considera que esse tipo de comportamento se deve à criação que os pais deram ao jovem, e também ao pouco envolvimento da família com a sua educação. Segundo ela, o jovem deve se questionar:  "'Só porque é moda eu também vou usar?' Um aluno que é bem sucedido dentro de casa, que tem uma família boa, automaticamente não usa esse tipo de coisa", declara a vice-diretora Ana Maria.

Confrontando costumes, normas e valores morais

Fernanda Vernier fernanda_vernier@hotmail.com

Como entender os emos, uma tribo urbana de costumes tão diferentes? De acordo com a socióloga Eliana de Gasperi, as pessoas se juntam em grupos com o objetivo de serem mais fortes. Se o que desejam é o confronto, elas não podem lutar sozinhas. "Existe ali alguma forma de protesto, de denúncia. Então é importante entender essa denúncia e a forma como é feita", afirmou. A professora lembra que os homens são constituídos por valores culturais, "assimilados através de vestimentas, forma dos cabelos, olhar, e pela linguagem".
A também socióloga Adriana Pessatte Azzolino, coordenadora do curso de Comunicação Social do Isca, define a idéia de tribo urbana como uma "contraposição, porque urbano é próprio de uma cidade e tribo é uma recorrência a outro estilo de organização de uma sociedade que existiu no passado". Portanto, quando se usa o termo "tribo urbana", a intenção é tentar descrever uma situação nova. Grupos como os emos rejeitam as instituições que regulam a sociedade, entre elas a família, o trabalho, a religião e a escola. "Eles  são contra a ordem esta-belecida; desejam criar uma ordem própria", explica Adriana.
A organização dos jovens em tribos também foi analisada pela professora e psicóloga Maria de Lourdes Belle. Segundo ela, a adolescência é uma época "perigosa e trabalhosa, mas natural. A busca por determinados tipos de roupas, sinais, frases e hábitos deixa transparecer a necessidade de fortalecimento da identidade por meio do grupo. "A construção da identidade é pessoal e social, acontecendo de forma interativa, através de trocas entre o indivíduo e o meio em que está inserido", diz a professora.

* Alunos do 6º semestre de Jornalismo (alex.contin@hotmail.com / dmjornalista@hotmail.com)