sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Palavras da língua portuguesa perderão acento

Lilian Geraldini *

O processo de unificação da língua portuguesa está em andamento e os oito países que usam esse idioma - Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste e Brasil - seguirão o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assinado em 1990, em Lisboa. 

O acordo esperava pela aceitação de pelo menos três desses países. O Brasil foi o primeiro a ratificar a adesão, assim como Cabo Verde e recentemente, São Tomé e Príncipe. Portanto, ao que tudo indica, até o final deste ano todos os "irmãos de língua portuguesa" escreverão da mesma maneira.
O acordo foi proposto com o objetivo de contribuir para a difusão do idioma no exterior. O deputado José Lourenço (PMDB- BA), que nasceu em Portugal, sugeriu a unificação dos livros didáticos de ensino fundamental nas disciplinas português, matemática e ciências, como forma de facilitar o aprendizado.
Embora se modifique a ortografia, a pronúncia de cada nação será mantida. Mesmo assim, teremos de nos habituar, por exemplo, com o fato de que os vocábulos paroxítonos terminados em "o" duplo - como enjôo e vôo - serão agora escritos sem o acento circunflexo (enjoo, voo). E ainda teremos de nos lembrar de que "conseqüência" perderá o trema, já que este será abolido definitivamente. Além disso, o alfabeto terá 26 letras, e não mais 23, pois serão incorporados o "w", o "y" e o "k". 
Para a professora Élina Barbosa, que ensina língua portuguesa e literatura para estudantes de ensino médio em Piracicaba, desde que se mantenha a significação das palavras, as mudanças serão bem-vindas, visto que têm o propósito de auxiliar no aprendizado. O problema, segundo ela, é que nem todas as pessoas vão se acostumar com essa nova maneira de escrever.
"Se pensarmos em termos de globalização, o novo Acordo Ortográfico será ótimo. O único problema é que no Brasil as mudanças são pouco divulgadas. Será que todos terão acesso a esse novo modelo", questiona a analista contábil Luzia Turrioni, 34, acrescentando: "E as crianças que  passaram do processo de alfabetização? Elas terão professores habilitados para ensiná-las novamente?". 
Diretor da Rádio Difusora de Piracicaba, o jornalista Marcelo Bongagna, 39, também acredita que as mudanças serão benéficas, e defende que deveriam ocorrer pelo menos a cada década. "É preciso adequar a língua portuguesa à modernidade. Com relação ao ensino não vejo problema. Não creio que uma mudança na família das palavras provoque dificuldade no aprendizado". 
Informática
 O bacharel em Ciências da Computação, Everton Nunes, 26, acredita que para sua profissão o acordo "será útil". Ele ressalta que na informática o uso do hífen e do trema, por exemplo, dificulta a linguagem da programação. "É preciso fazer uma base de dados específica para vocábulos em que é necessário o uso desses auxiliares".
Para alguns, porém, a reforma não tem grande utilidade. É o caso da ex-professora universitária Maria Luiza de Almeida Leme, que atualmente trabalha no ensino médio. Ela avalia a situação como "ilógica" e acredita que não há base científica para essa reforma da língua, levando em conta que o entendimento do dialeto é possível em qualquer uma das nações que utilizam o português como língua mãe. A professora critica a decisão do governo: "Não acrescentará nada ao aprendizado dos alunos, além do que o custo com a reformulação e reimpressão de livros e dicionários será altíssimo".   

* Estudante do 2o semestre de Jornalismo da Isca Faculdades