terça-feira, 23 de outubro de 2007

Tropa de Elite: o debate na imprensa

Seleção: Daíza Lacerda *

A torcida da caveira talvez seja mais um sintoma da crise moral e institucional que ronda a segurança pública no Brasil. Há algo de profundamente errado em uma sociedade que só aplaude sua polícia quando ela se comporta como o bandido.

Jerônimo Teixeira, Veja, 06/10/07

As milhares de cópias piratas buscadas com fome, as platéias sideradas quase sexualmente pelo sangue mostram que nós somos os personagens de um país sem enredo, que estamos famintos de que algo aconteça, de que alguma forma de justiça se faça, de que alguma organização apareça, de que não haja só aquela polícia podre que rouba peças de carros da PM para vender, de oficiais pegando jabá do bicho, de que haja heróis incorruptíveis e machos vingadores de nossa insegurança. (...)

As multidões vão ver esse filme porque querem que ele seja uma resposta.

Não interessa se "Tropa de elite" é um filme ruim ou bom. O que conta é a fome de "solução" que ele desperta em nós.

Arnaldo Jabor, O Globo, 09/10/07

 

 

Bem pior do que aplaudir as torturas praticadas por Wagner Moura em Tropa de Elite é aplaudir as torturas praticadas em nome de Renan Calheiros no Senado. É o que está acontecendo comigo. Eu sei que é errado, mas aplaudo toda vez que, em sua desavergonhada defesa de Renan Calheiros, Ideli Salvatti aparece na TV como se estivesse com um saco plástico enfiado na cabeça, sem ar, com a jugular inflada. E aplaudo toda vez que Aloizio Mercadante esperneia como se estivesse sendo ameaçado com um cabo de vassoura.

Diogo Mainardi, Veja, 14/10/07

 

 

A repercussão emotiva a respeito do filme, afinal, não tem a ver apenas com ele. Tem a ver com um momento histórico em que a lenta melhora do Brasil é insuficiente para reduzir de modo expressivo o estoque da dívida social, da imensa carência de renda e justiça, de problemas como a violência urbana. (...)

Enquanto isso, os políticos de todos os partidos não param de sugerir que uma propina justifica a outra, tal como os personagens de Tropa de Elite. No mundo de Renan Calheiros, os extremos afundam juntos.

Daniel Piza, Estadão, 14/10/07

 

 

Essa maneira de entender o social oferece a todos uma compensação substancial: se a lei não é a referência comum, podemos ser assaltados nos faróis, mas também podemos praticar cada tipo de mediocridade moral e de ilegalidade (...).

[Sobre a justificativa da pirataria] Havia o estilo "eu não serei o único otário", que, grosso modo, diz assim: "Se Renan Calheiros é presidente do Senado, eu posso comprar um DVD pirata". E havia o estilo "está na hora de mudar", em que um ato que nega a propriedade intelectual é justificado diretamente pela injustiça social dominante. Valia tudo, salvo o óbvio: pela lei, piratear é crime. (...)

Se quiser pensar e viver a realidade nacional um pouco além dos limites impostos pela consciência culpada, não perca "Tropa de Elite".

Contardo Calligaris, Folha de S. Paulo, 11/10/07

 

 

A missão que Tropa de Elite cumpre agora foi iniciada por Cidade de Deus, que desmantelou os estereótipos do criminoso coitado e do bandido camarada (figuras que, logo a seguir, Carandiru reinstauraria com veemência). (...)

O impacto de Tropa de Elite mostra com clareza que o cinema nacional precisa de uma nova sociologia. A platéia sabe que escolher entre uma polícia corrupta e uma polícia violenta não é escolha. Mas dá sinais de que não quer mais ver a bandidagem mitificada.

Isabela Boscov, Veja, 12/10/07

 

 

O que os "playboys" do relativismo rejeitam é a evocação da responsabilidade dos consumidores de droga na tragédia social brasileira. (...)

[A ética entre o personagem Matias e o capitão Nascimento]  revela não a convivência entre as diferenças, mas a conivência com o crime de uma franja da sociedade que pretende, a um só tempo, ser beneficiária de todas as vantagens do estado de direito e de todas as transgressões da delinqüência. (...)

Quem consome droga ilícita põe uma arma na mão de uma criança. É simples. É fato. É objetivo. (...)

O filme submete a um justo ridículo a sociologia vagabunda que tenta ver a polícia e o bandido como lados opostos (às vezes unidos), mas de idêntica legitimidade, de um conflito inerente ao estado burguês.

Reinaldo Azevedo, Veja, 12/10/07

* Daíza Lacerda é estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca e editora da Agência Nova