A Secom foi aberta na segunda-feira, 22, e reuniu alunos e professores dos cursos de Jornalismo e Publicidade do Isca.
Eliane mudou-se para Brasília aos nove anos de idade. Aos 14, decidiu que seria jornalista. "Eu gostava de ler e de escrever. Nessa época, pedi de presente de Natal, para minha mãe, uma máquina de escrever portátil, mas ela me deu uma televisão. Eu chorei e briguei até minha mãe me dar a máquina".
Formada pela Universidade de Brasília (UNB), Eliane ingressou na faculdade aos 18 anos, e já no terceiro semestre foi convidada para fazer estágio em jornal. "Virei jornalista profissional antes de ser formada". Ela ingressou na carreira jornalística ainda durante a ditadura. "Os jornalistas não tinham acesso a nada. Essa era uma das maiores dificuldades da censura. Hoje, acredito que esse acesso é bem maior".
Eliane avalia que o período militar deixou muitos resquícios, que afetam vários setores da sociedade brasileira, entre eles o jornalismo. "Se a sociedade fica fechada por vinte anos, isso cria uma nova realidade cultural, social e econômica, e conseqüentemente gera reflexos no exercício jornalístico".
Internet
A colunista da Folha ressalta que a internet é hoje uma ferramenta fundamental para o jornalista."[A web] criou uma relação entre o jornalista e seu interlocutor muito diferente do que jamais houve, porque antes escrevíamos e não existia retorno do leitor. Hoje você escreve e acontece uma espécie de 'bate-volta'. Existe uma interação muito maior entre jornalista e leitor, o que influencia até mesmo nas pautas".
Questionada quanto ao mercado de trabalho, disse acreditar que o jornalismo é uma profissão abrangente e que tem um mercado muito bom. "Existem diversos setores relacionados à comunicação dos quais os jornalistas esquecem. É preciso saber que não existem somente jornais, revistas e televisão. Um meio de comunicação que gosto muito é o rádio, porque alcança qualquer lugar".
Eliane comentou também sobre as diferenças existentes entre a imprensa nacional e a regional. "Na imprensa nacional você assina e se responsabiliza por aquilo que escreve perante a nação, e está sujeito a uma fiscalização mais forte da sociedade. No caso da imprensa regional, por exemplo, em uma cidadezinha do Nordeste uma pessoa muito rica compra os meios de comunicação locais e os utiliza para fazer campanha política. A imprensa regional, em algumas localidades do Brasil, comporta esse tipo de golpe político".
Na opinião da jornalista, um dos grandes problemas dos jornais regionais são os textos mal escritos. "Isso deve ser discutido pelos novos jornalistas que sairão das universidades, pois eles podem mudar esse cenário. A valorização da imprensa regional é uma questão de vontade, da própria região e dos jornalistas presentes nela, de fazer acontecer e de pôr a mão na massa".
Sobre o Congresso Nacional e o cenário político brasileiro, Eliane afirma: "Os jornalistas têm uma grande facilidade no acesso ao Congresso e tudo vira notícia. Precisamos de um foco mais abrangente, de saber o que se passa nas outras instâncias. É necessário que haja espaço para uma discussão sobre o país como um todo nos meios de comunicação". A jornalista lembra que na política, assim como na psicanálise, é comum as pessoas verbalizarem uma coisa e sentirem outra. "Por exemplo, é muito comum você ouvir que as pessoas detestam política e não entendem nada sobre o assunto. Mas a maioria sabe o que o Lula está fazendo, do que gosta e do que não gosta no presidente. Ou seja, apesar de as pessoas dizerem o contrário, estão cada vez mais politizadas".
Para a jornalista, é preciso perceber o Brasil como um país inserido no contexto internacional. "Atualmente, o mundo não se divide mais em países, e sim em blocos políticos e econômicos", lembra.
Sobre o episódio da fuga do banqueiro Salvatore Cacciola, em 2000 - o ex-dono do banco Marka foi recentemente detido em Mônaco, após sumiço de sete anos -. Eliane conta: "Eu estava na Venezuela quando li que o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, havia concedido liberdade provisória ao Cacciola. Escrevi uma coluna com o título 'Qual é a sua, Marco Aurélio?', e isso gerou polêmica durante um longo tempo. Os juristas mandavam artigos para o jornal e eu respondia, até que escreveram um artigo dizendo que os leigos, que não entendiam de política, não poderiam escrever em jornal. E eu finalizei essa discussão escrevendo um texto no qual dizia que nós, os leigos, não entendemos mesmo nada de política, porém, pagamos a conta".
* Alunos do 2º semestre de Jornalismo do Isca e repórteres da Agência Nova