segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Mundo real, infância virtual

Juliano Schiavo *

O controle na mão. O corpo estático. Os olhos fixos numa tela. Uma brincadeira virtual. O objetivo? Depende do jogo. Tudo se resume em vencer os objetivos, superar as metas. Caso não se consiga, há os códigos de trapaça, que facilitam tudo e que tornam a personagem invencível.


E as brincadeiras do mundo real? Pega-pega, cobra-cega, esconde-esconde, carrinho de rolimã? São fábulas do passado. A infância, antes praticada nas ruas, hoje está confinada a um quarto. O quarto, reduto da individualidade, tem tudo a oferecer: computador, videogame e televisão. E só. Já está feita a brincadeira. Basta ligar a tela e se divertir.

No século 20, a sociedade passou por uma grande mudança e pela inversão de valores. As ruas são violentas. Pessoas andam desgovernadas para cumprir suas tarefas diárias de acordo com os ponteiros do relógio.
 
A infância do brincar, do ralar o joelho, do raspar o cotovelo, transformou-se na infância do jogo virtual. Pais e mães ausentes. Para suprir a ausência, compram-se presentes. Como ter princípios se o eixo familiar está frouxo? Como valorizar o indivíduo se o que se oferece é um presente e não o amor, a palavra, o carinho? Os valores mudaram. E a sociedade perdeu.
 
É fácil para um pai colocar o filho na escola e esperar que ele seja educado. Difícil é entender por que esse filho usa drogas, é revoltado e tem depressão. Será que a culpa é da escola? Do governo? Do PCC? Da Globo? Da Xuxa? A culpa é da família.
 
Vivemos em uma coletividade desguarnecida de amor fraterno. Uma coletividade que só sabe culpar terceiros e que não olha para o próprio umbigo, imundo, sujo, e que necessita ser limpo o mais rápido possível. Somos a sociedade da infância perdida, dos valores perdidos, do fim da esperança de um mundo melhor. Morremos e esquecemos de deitar.

O autor é estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca e colaborador da Agência Nova

* jssjuliano@yahoo.com.br

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quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Do popular ao literário: jornalismo em pauta


Daíza Lacerda *

Mário Rossit, editor do Notícia Já, e Fábio Gallacci, repórter do Correio Popular, estiveram na quarta-feira, 24, na 8ª Semana de Comunicação do Isca Faculdades. Os jornalistas, que atuam nos jornais da Rede Anhangüera de Comunicação (RAC), de Campinas, propuseram um bate-papo informal com a platéia, no qual falaram do dia-a-dia nos veículos e dos prêmios que já obtiveram por seu trabalho.


Sobre o Notícia Já, um tablóide popular vendido a 50 centavos na região de Campinas, Rossit explicou que o jornal visa abrir espaço no mercado, atendendo a um público formado por novos leitores. "Hoje o jornal mais vendido do Brasil é um popular, oSuperNotícia, da região metropolitana de Belo Horizonte, que vende 300 mil exemplares por dia".

Esportes, celebridades e polícia são os temas de peso do . Política e economia têm pouco espaço. Rossit afirmou que "a abordagem em economia é de prestação de serviços", e de polícia é "mais de humor do que de tragédia". Acrescentou também que não há um compromisso rígido com a linguagem, e que o tablóide usa o tom coloquial e até gírias do cotidiano, como "busão" ao invés de ônibus, por exemplo.

O editor vê o jornal popular como a "salvação para o meio impresso", o que se reflete na diminuição da vendagem dos grandes jornais e na alta dos populares como oSuperNotícia (MG), Extra (RJ) e Diário Gaúcho (RS).

Prêmios

Mário Rossit, que foi também editor de Cidades da Folha de S. Paulo e do jornal Agora São Paulo, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo em 2001 com reportagens sobre a contaminação provocada pela Shell em Paulínia (SP). "O fato tomou repercussão nacional", lembra o editor, referindo-se à denúncia de contaminação da água em um bairro residencial ao lado da empresa química. A conseqüência para os moradores da região foi a elevada ocorrência de vários tipos de câncer, além de problemas neurológicos e renais.

O repórter Fábio Gallacci ganhou o mesmo prêmio em 2006, com uma série de reportagens sobre os chamados "sanguessugas", na qual denunciou a participação de quatro deputados da região de Campinas na compra de ambulâncias superfaturadas. Para Gallacci, no entanto, o maior prêmio foi o fato de nenhum deputado ter conseguido se reeleger, tendo um deles perdido 90% dos votos em relação à eleição anterior.

Considerou as reportagens um fruto de sorte e persistência: "As pessoas começaram a confiar no trabalho e a me alimentar com informações. Eles [os envolvidos] não foram punidos no Congresso, mas nas urnas".

Dia-a-dia e mercado

A pauta é o repórter quem traz da rua, concordam os jornalistas da RAC. Segundo Gallacci, "nem sempre o editor tem a noção do real. Ele tem idéias, mas não sabe como executá-las". Já o repórter sabe o que acontece, pois "está na linha de frente, dá a cara à tapa na rua".

Os jornalistas falaram da rotina das redações e dos conflitos entre os setores comercial e editorial. "É um relacionamento tortuoso, mas temos de andar juntos", ponderou Rossit. Apesar de muitas matérias ficarem "na gaveta" para dar espaço aos anúncios, Gallacci considera que "o departamento comercial é o carro-chefe do veículo". O repórter avaliou a força do mercado regional, que em sua opinião deve ser valorizado: "É possível fazer um jornalismo sério, de qualidade, que repercute na sua cidade". Rossit acrescentou que nos jornais regionais há maior estabilidade em comparação aos grandes veículos, onde a rotatividade de profissionais é constante.

A importância de saber cultivar fontes e ter uma boa agenda, assim como o crescimento do campo da assessoria de imprensa, também foram assuntos discutidos. "O assessor facilita o trabalho do jornalista", declarou Gallacci. E Rossit concluiu: "Se for um bom profissional, não vai ficar desempregado".

Jornalismo Literário

Passar-se por cego ou ficar seis horas esperando atendimento em hospital para fazer uma reportagem que tenha "conseqüências positivas para as pessoas". Tomar o "Santo Daime" - chá alucinógeno feito de folhas e raízes da Amazônia - ou viver um dia de "bicão" sem gastar nada, aproveitando cafezinhos e test drive grátis. Estas são algumas das experiências do repórter Fábio Gallacci, que também já se vestiu de mulher para entrar num clube das mulheres, onde pôde fazer "jornalismo literário, sem as amarras do lead".

Em entrevista à Agência Nova, Gallacci falou do diferencial oferecido pelo chamado jornalismo literário: "É um jeito diferente de contar uma história, e se for bem feito, com informação e texto diferenciado, tem cada vez mais espaço [na mídia impressa]".

* Estudante do 6º semestre de Jornalismo e editora da Agência Nova

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Internet mudou relação entre jornalista e leitor


* Gustavo Nolasco e Mariana Antonella

A jornalista Eliane Cantanhêde, colunista da Folha de S. Paulo, abriu a 8ª Semana de Comunicação (Secom), do Isca Faculdades, com uma palestra sobre mídia, realidade e política brasileira. Ela abordou assuntos relacionados à política nacional e internacional, televisão pública, escândalos e comportamento da imprensa, entre outros.


A Secom foi aberta na segunda-feira, 22, e reuniu alunos e professores dos cursos de Jornalismo e Publicidade do Isca.

Eliane mudou-se para Brasília aos nove anos de idade. Aos 14, decidiu que seria jornalista. "Eu gostava de ler e de escrever. Nessa época, pedi de presente de Natal, para minha mãe, uma máquina de escrever portátil, mas ela me deu uma televisão. Eu chorei e briguei até minha mãe me dar a máquina".

Formada pela Universidade de Brasília (UNB), Eliane ingressou na faculdade aos 18 anos, e já no terceiro semestre foi convidada para fazer estágio em jornal. "Virei jornalista profissional antes de ser formada". Ela ingressou na carreira jornalística ainda durante a ditadura. "Os jornalistas não tinham acesso a nada. Essa era uma das maiores dificuldades da censura. Hoje, acredito que esse acesso é bem maior".

 

Eliane avalia que o período militar deixou muitos resquícios, que afetam vários setores da sociedade brasileira, entre eles o jornalismo. "Se a sociedade fica fechada por vinte anos, isso cria uma nova realidade cultural, social e econômica, e conseqüentemente gera reflexos no exercício jornalístico".

 

Internet
A colunista da Folha ressalta que a internet é hoje uma ferramenta fundamental para o jornalista."[A web] criou uma relação entre o jornalista e seu interlocutor muito diferente do que jamais houve, porque antes escrevíamos e não existia retorno do leitor. Hoje você escreve e acontece uma espécie de 'bate-volta'. Existe uma interação muito maior entre jornalista e leitor, o que influencia até mesmo nas pautas".

Questionada quanto ao mercado de trabalho, disse acreditar que o jornalismo é uma profissão abrangente e que tem um mercado muito bom. "Existem diversos setores relacionados à comunicação dos quais os jornalistas esquecem. É preciso saber que não existem somente jornais, revistas e televisão. Um meio de comunicação que gosto muito é o rádio, porque alcança qualquer lugar".

 

Eliane comentou também sobre as diferenças existentes entre a imprensa nacional e a regional. "Na imprensa nacional você assina e se responsabiliza por aquilo que escreve perante a nação, e está sujeito a uma fiscalização mais forte da sociedade. No caso da imprensa regional, por exemplo, em uma cidadezinha do Nordeste uma pessoa muito rica compra os meios de comunicação locais e os utiliza para fazer campanha política. A imprensa regional, em algumas localidades do Brasil, comporta esse tipo de golpe político".

 

Na opinião da jornalista, um dos grandes problemas dos jornais regionais são os textos mal escritos. "Isso deve ser discutido pelos novos jornalistas que sairão das universidades, pois eles podem mudar esse cenário. A valorização da imprensa regional é uma questão de vontade, da própria região e dos jornalistas presentes nela, de fazer acontecer e de pôr a mão na massa".

 

Sobre o Congresso Nacional e o cenário político brasileiro, Eliane afirma: "Os jornalistas têm uma grande facilidade no acesso ao Congresso e tudo vira notícia. Precisamos de um foco mais abrangente, de saber o que se passa nas outras instâncias. É necessário que haja espaço para uma discussão sobre o país como um todo nos meios de comunicação". A jornalista lembra que na política, assim como na psicanálise, é comum as pessoas verbalizarem uma coisa e sentirem outra. "Por exemplo, é muito comum você ouvir que as pessoas detestam política e não entendem nada sobre o assunto. Mas a maioria sabe o que o Lula está fazendo, do que gosta e do que não gosta no presidente. Ou seja, apesar de as pessoas dizerem o contrário, estão cada vez mais politizadas".

Para a jornalista, é preciso perceber o Brasil como um país inserido no contexto internacional. "Atualmente, o mundo não se divide mais em países, e sim em blocos políticos e econômicos", lembra.

Sobre o episódio da fuga do banqueiro Salvatore Cacciola, em 2000 - o ex-dono do banco Marka foi recentemente detido em Mônaco, após sumiço de sete anos -. Eliane conta: "Eu estava na Venezuela quando li que o ministro do STF, Marco Aurélio Mello, havia concedido liberdade provisória ao Cacciola. Escrevi uma coluna com o título 'Qual é a sua, Marco Aurélio?', e isso gerou polêmica durante um longo tempo. Os juristas mandavam artigos para o jornal e eu respondia, até que escreveram um artigo dizendo que os leigos, que não entendiam de política, não poderiam escrever em jornal. E eu finalizei essa discussão escrevendo um texto no qual dizia que nós, os leigos, não entendemos mesmo nada de política, porém, pagamos a conta".

* Alunos do 2º semestre de Jornalismo do Isca e repórteres da Agência Nova

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Editorialista do Estadão empolga estudantes


Paulo Silas* *

Diante de aplausos calorosos e olhares atentos do público, formado por estudantes, professores e visitantes, a editorialista do jornal O Estado de S. Paulo, Márcia Guerreiro, encerrou a 8ª Semana de Comunicação do Isca Faculdades na sexta-feira, 26, no auditório da instituição.


Em pouco mais de duas horas, a jornalista mostrou os principais procedimentos para a elaboração de uma boa reportagem e destacou a importância de sensibilizar o leitor. "O público é muito mais inteligente do que possamos imaginar", disse.

O anfiteatro tornou-se uma imensa sala de aula. "Márcia deu uma verdadeira aula de redação jornalística e, principalmente, de técnicas de reportagem, explicando como se deve fazer não só para redigir um texto, mas como colher as informações, investigar os fatos, e nunca se contentar com a versão de uma fonte, apenas", afirma Rodrigo Cezarin, estudante do 8º semestre de Jornalismo do Isca. 

Coordenadora do curso de Jornalismo, a professora Milena de Castro disse que a palestrante mostrou um diferencial em relação aos outros convidados. "Ela foi além. Teve a preocupação de mostrar algo a mais, colaborando muito com o sucesso do evento".

Com esse intuito, o de deixar uma contribuição aos estudantes de Jornalismo, Márcia justificou a escolha do tema. "O jovem jornalista sai da faculdade sem conhecer a rotina da redação de um grande jornal". Para ela, fugir da mesmice diante da concorrência eletrônica é primordial para um veículo impresso. Por isso, o jornalista deve usar a imaginação e a memória, pois precisa atender o leitor da melhor forma possível. "Não conte, mostre", sugeriu a jornalista, que nasceu em Limeira, formou-se na PUC-Campinas e trabalhou em jornais da região antes de se mudar para São Paulo.

Segundo Márcia, em suas matérias o repórter deve atentar a três princípios básicos: precisão, objetividade e credibilidade. "Assim, na produção de uma reportagem, é essencial a experiência, o estilo de vida e a bagagem cultural. Porque pessoas diferentes enxergam as coisas de maneira diferente".

Defendendo o uso parcimonioso do estilo literário, ela acredita que é possível escrever bons textos sem ser piegas. "Basta apenas descrever exatamente o que aconteceu, mas buscando um olhar diferente". Condenou, porém, a posição de jornalistas que apelam ao tom sensacionalista para noticiar uma tragédia. "Não se deve dramatizar aquilo que já é um drama", alertou, citando como exemplo o acidente com o avião da TAM.

* Estudante do 8º semestre de Jornalismo e repórter da Agência Nova

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