Gustavo Nolasco e Mariana Antonella*
Sobre a realidade das mulheres bóias-frias, e o modo como conciliam o trabalho, a casa e os filhos, Célia diz que esta é uma "relação muito difícil e complicada". "É um cotidiano árduo, pois a mulher acorda às 4 da manhã para preparar o almoço para ela e o marido, que muitas vezes também é trabalhador rural. Se tem filhos, ainda de madrugada os prepara para irem à creche ou escola. Toma um ônibus às 6 horas até o canavial e começa o trabalho às 7 horas, permanecendo ali até às 16. Depois, pega os filhos e retorna a sua casa para terminar o serviço doméstico".
Como o salário do bóia-fria é calculado através da quantidade de cana cortada, os homens, que possuem maior força física e resistência, acabam ganhando mais que as mulheres.
Os trabalhadores levam a própria comida para a lavoura, daí o nome "bóia-fria". A Usina Iracema e empreiteiras fornecem marmitas térmicas que conservam a temperatura do alimento por um determinado tempo, porém, alguns trabalhadores preferem não usá-las, alegando que com algum tempo de uso, por serem de plástico, deixam a comida com gosto ruim.
Sobre a inserção das mulheres nesse mercado, Célia diz que as trabalhadoras se vêem na obrigação de ajudar seus maridos, e como não possuem um nível de escolaridade que as permitam ingressar em outra profissão, acabam procurando o trabalho rural. "Entre as entrevistas que fiz com as bóias-frias, vale lembrar a de uma senhora que trabalhava desde os dez anos de idade como bóia-fria. Ela me contou que desde que era recém-nascida, os pais dela já trabalhavam no campo e a levavam para o local. Ou seja, ela passou toda a vida em contato com o campo". Mais tarde, a mulher teve a mesma atitude com os filhos. "Essa história exemplifica como o trabalho rural perpassa as gerações de uma mesma família".
Célia procurou pesquisar as condições psicológicas das mulheres, a sociabilidade e o preconceito que sofrem por serem bóias-frias. "Também tento criar um parâmetro entre o passado e o presente, visando entender as mudanças que ocorreram na profissão. Tento levantar questões como a dificuldade nesse tipo de trabalho, se realmente vale a pena cortar cana para sobreviver, ou se essa profissão já se tornou um hábito na vida dessas mulheres".
Mídias alternativas
O aluno Filipe Blanco, por sua vez, escolheu discutir o papel das rádios comunitárias em seu trabalho de conclusão de curso. "Escolhi uma rádio comunitária que me daria respaldo para conscientizar as pessoas politicamente, o que não conseguiria numa rádio privada". Segundo ele, apesar do governo "atacar" as mídias alternativas, o movimento social em favor deste segmento está crescendo. "Espero atingir as camadas mais exploradas da população e inflamá-las politicamente para que adquiram um pensamento crítico em relação às instituições. E também que elas possam se organizar em movimentos sociais e combater a tragédia que é o capitalismo".
Felipe observa que seu estudo foi realizado a partir do ponto de vista dos receptores, ou seja, dos ouvintes de uma determinada rádio. "A primeira questão que levantei foi se as mídias convencionais são totalizantes, e concluí que não, pois os receptores têm uma visão diferente e heterogênea em relação a elas", observa.
* Estudantes do 2º semestre de Jornalismo do Isca Faculdades e repórteres da Agência Nova






