sexta-feira, 30 de maio de 2008

Escoteiros realizam campanha para doação de sangue

Ketlyn Zabin *

O Clã Pioneiro Brownsea (ramo que contempla jovens de 18 a 21 anos) do Grupo Escoteiro Tatuibi realizou, de 20 a 25 de outubro de 2008, no Banco de Sangue da Santa Casa de Limeira, a campanha "CLÃmpanha Compartilhando a Vida", com intuito de incentivar  as doações de sangue, comemorando, assim, o Dia Regional de Ação Comunitária Pioneira (25 de outubro).


A ciência, embora avançando em muitos setores, ainda não encontrou um substituto artificial eficiente para o sangue humano. Por isso, todos os procedimentos médicos que demandam transfusão de sangue precisam dispor de um fornecimento regular e seguro deste elemento. Com isso, há a necessidade de se manter sempre abastecidos os bancos de sangue. 

"O objetivo da campanha não é exatamente aumentar considerávelmente o número de doadores para o período de uma semana, mas, sim, despertar a conscientização da população para que repitam o gesto com mais frequência, reforçando o ato de solidariedade", afirma Murilo de Sena Cagliari, organizador do evento e escoteiro.

  

Para doar sangue é necessário:

  • Estar em boas condições de saúde;
  • Apresentar documento de identidade original ou fotocópia autenticada ou documento equivalente com foto e filiação;
  • Ter entre 18 e 65 anos;
  • Ter peso mínimo de 50 kg;
  • Ter descansado no mínimo 6 horas nas últimas 24 horas;
  • Não estar gripado ou com febre;
  • Não estar grávida ou amamentando;
  • Não ter ingerido bebida alcoólica nas últimas 6 horas.


Não pode doar:

  • Quem fez tatuagem, piercing ou tratamento com acupuntura nos últimos 12 meses;
  • Portadores de vírus da AIDS, HBV, HCV ou HTLV;
  • Pessoas que já viveram situações sexuais de risco acrescido;
  • Quem possui histórico de doença hematológica, cardíaca, renal, pulmonar, hepática, ato-imune, diabetes, hipertireoidismo, hanseníase, tuberculose, câncer, sangramento anormal, convulsão após os dois anos de idade ou epilepsia, sífilis, doença de Chagas ou malária;
  • Usuários de drogas;
  • Medicamentos contra indicados para doação de sangue;
  • Anemia;
  • Mulheres grávidas não poderão doar sangue.

* Aluna do 4º semestre de Jornalismo do Isca

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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Por aí, de posto em posto...

Porta-malas do carro aberto, música em alto volume, garotas maquiadas e de salto alto, amigos jogando conversa fora com uma latinha de cerveja nas mãos. Pela descrição até parece a entrada de uma danceteria ou de um bar movimentado, mas não. 

Essas características são a de um posto de gasolina qualquer da região, em um final de semana.
Antes locais onde simplesmente se abastecia veículos, os postos de combustível são o "point" do momento. As lojas de conveniências, por exemplo, funcionam como uma espécie de mini-mercado, onde é possível encontrar de chicletes até os mais variados tipos de bebidas alcoólicas. Everton Alcântara, 26, diz que prefere ir ao posto a pagar para entrar em uma danceteria. "No posto posso reunir meus amigos, até mesmo aqueles que estão sem dinheiro para sair", justifica.
A preferência, contudo, pode ser entendida também como falta de opção de lazer, segundo a professora e socióloga Adriana Pessate Azzolino: "Os jovens procuram os postos para se reunir por falta de uma política pública que crie espaços de lazer adaptados ao seu gosto". Mas, para a psicóloga Rosana Monteiro Silva, não se pode negar que os jovens acabam por freqüentar os postos também por uma questão de identidade. "Unidos pelos mesmos princípios, fica mais fácil a aproximação", comenta. 
A freqüência de grupos nesses lugares abertos, aparentemente sem regras, faz com que haja uma preocupação maior com relação à segurança, especialmente no que diz respeito ao uso de drogas e a prática dos chamados rachas. A Guarda Municipal e a Polícia Militar de cidades da região, como Limeira e Piracicaba, costumam receber denúncias de moradores que residem às proximidades dos postos. Muitos se dizem impedidos de sair ou entrar em casa, em função da quantidade de veículos estacionados ou de pessoas obstruindo a passagem.
Os próprios policiais, contudo, reconhecem que a maioria dos jovens freqüenta esses ambientes por divertimento. "A maioria vai lá para se divertir. É a minoria que pratica atos de vandalismo", diz Siddhartha Carneiro Leão, secretário de Segurança Pública de Limeira.

* Colaboraram: Callebe Bueno, Ivan Costa, Karina Rossi, Lílian Geraldini, Roxane Regly, Sulamita Bela e Tamires Gonçalves (Estudantes do 3º semestre de Jornalismo)

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Vida nova para idosos em Araras


Fernanda Dias *

Há 31 anos a Casa do Idoso São Judas Tadeu, em Araras, atende pessoas com mais de 60 anos, que apresentam problemas de saúde típicos da terceira idade e não têm condições de morar sozinhas. 

Trata-se de uma organização sem fins lucrativos, que busca ajuda não somente do setor público, mas também de voluntários, grupos de apoio e doadores anônimos. Além das contribuições financeiras, são realizadas festas em favor da entidade, que também recebe visitas regulares de grupos religiosos e atendimento médico gratuito, realizado por voluntários.
A casa existe desde 27 de julho de 1977, e foi decretada de utilidade pública em 26 de fevereiro de 1998. Cerca de 14 funcionários fazem parte da equipe técnica do asilo, sendo quatro auxiliares de enfermagem, três auxiliares gerais, seis atendentes e um supervisor. Profissionais das áreas de odontologia e fisioterapia do Centro Universitário Hermínio Ometto, de Araras, também colaboram. 
Hoje a fundação abriga 28 idosos, seis dos quais são homens. Dona Zelinda é a moradora mais velha. Aos 93 anos, diz que encontrou sua segunda família e uma maneira mais alegre de viver. "Com o tempo acabei perdendo muitos movimentos e tomei a decisão de vir morar em um asilo. Não acho certo dar trabalho para os meus filhos. Eles já cuidaram o suficiente de mim e aqui fiz uma nova família", conta. João Rodrigues dos Santos, o mais velho dos homens, tem 75 anos. Ele não dispensa a companhia dos colegas no jogo de cartas, nem os cuidados da supervisora Marli.
Os idosos recebem visitas regulares dos familiares, e a diretoria da fundação faz questão de manter vivos esses laços afetivos. "É extremamente importante para ambos que ocorra essa troca de carinho. A família acaba aprendendo com o idoso e ele sente que ainda é querido", conclui Marli. É o caso de Maria Augusta, 63 anos, que costuma ir para a casa dos filhos nos finais de semana. "Neste lugar encontrei uma alegria tão grande que não consigo viver longe daqui. Aos domingos meu filho vem me buscar. Passo momentos maravilhosos com todos eles, reencontro os netos e os outros filhos; afinal, eles são a minha verdadeira família". 
As visitas à Casa São Judas Tadeu podem ser feitas diariamente, das 13h às 16h30. Qualquer pessoa pode ir até o local.


No sábado, 10/05, idosos foram presenteados e ganharam diversos cobertores.

* Estudante do 3º semestre de Jornalismo e colaboradora da Agência Nova

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Um museu para as jóias folheadas


Callebe Bueno e Sulamita Bela *

Tomando como exemplo as cidades de Serra Negra e Holambra, que são reconhecidas pelo comércio têxtil e de flores, respectivamente, a prefeitura de Limeira lançou o projeto de construção do Museu da Jóia Folheada, que irá expor a trajetória de quase meio século de seu principal segmento comercial: a produção de jóias. 

A liderança na produção e na qualidade da confecção de jóias folheadas foi fundamental para a cidade se tornar conhecida em todo o Brasil e no exterior. Segundo o ex-secretário da Cultura e encarregado pelo projeto do museu, José Farid Zaine, a idéia conta com a contribuição de várias pessoas, que vêm cedendo materiais, informações e documentos.
Para resgatar com fidelidade a trajetória da jóia folheada, o museu contará também com o apoio do Núcleo de Design do Sindijóias. Além do museu, que funcionará no Palacete Levy, a cidade também passou a contar com um roteiro turístico que inclui as principais fábricas de jóias folheadas.

* Estudantes do 3º semestre de Jornalismo e colaboradores da Agência Nova

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segunda-feira, 19 de maio de 2008

Campanha do agasalho mobiliza Rio Claro e Araras

Fernanda Dias *

Os municípios de Araras e Rio Claro, por meio do Fundo Social de Solidariedade, estão promovendo a campanha do agasalho. No dia 17, em Rio Claro, aconteceu um mutirão, com voluntários percorrendo os bairros da cidade para arrecadar donativos.

 Até o momento, a cidade recolheu cerca de seis mil peças, entre blusas, calças e cobertores. As famílias que necessitam de agasalhos devem comparecer ao FSS, preencher o cadastro, pegar um termo de doação, ir ao depósito localizado à Rua 1, Cidade Nova (antiga Guarda Municipal) e escolher as peças. Mais informações pelo fone 3526.7171.
 Em Araras, a campanha do agasalho arrecadou nos últimos sete anos cerca de 362 mil peças de roupas, das quais 56 mil só em 2007. No domingo, 18, foi realizada no Lago Municipal a III Corrida de Pedalinho, onde todos os agasalhos arrecadados serão revertidos para a campanha.
Neste ano o Fundo Social de Araras fechou novamente parceria com a Pastoral da Criança, que fará a distribuição das peças arrecadadas nos bairros da cidade. As enfermeiras do Programa de Saúde da Família farão a distribuição na zona rural. 
Para participar basta procurar as caixas de coleta que estão distribuídas em escolas, igrejas, supermercados entre outros pontos da cidade. Mais informações pelo fone 3543-2721.

* Estudante do 3º semestre de Jornalismo e colaboradora da Agência Nova

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Estudantes encenam contos da literatura brasileira

Felipe Furlanetti e Rebeca Bar *

Os alunos do 1º semestre do curso de Comunicação Social do Isca Faculdades, nas habilitações Publicidade e Jornalismo, estão produzindo durante as aulas da disciplina PLPT (Prática de Leitura e Produção de Texto), o "Sarau de Contos".

Textos de renomados autores da literatura brasileira, a exemplo de Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Rubem Fonseca, inspiram as apresentações do sarau. Segundo a professora da disciplina e coordenadora do curso de Jornalismo, Milena de Castro, a iniciativa visa estreitar a relação dos jovens universitários com a leitura.
Até o momento, os contos "Feliz Aniversário" de Clarice Lispector, "Caligrafia de Deus" de Márcio Souza, "O homem que sabia javanês", de Lima Barreto, e "Redemunho", de Reinaldo Correia de Brito, foram encenados. Todas as apresentações são desenvolvidas em sala de aula, no Bloco H, sala 104.

Inovação
Para o estudante de Publicidade, Gustavo Teixeira de Castro, a leitura tornou-se "fascinante" após as apresentações. "O aprendizado fica mais divertido e didático quando são utilizados recursos sonoros ou até mesmo o teatro", avalia.
Após a apresentação é feito um pequeno debate, onde são colocados em pauta os assuntos abordados no texto. O interesse em expor o próprio pensamento faz com que todos os alunos participem efetivamente da aula.
"A encenação viabiliza uma melhor visualização de qualquer texto. Com isso há uma interatividade maior por parte deles, e sem dúvida um maior entendimento", analisa a professora Milena.

* Estudantes do 3º semestre de Jornalismo e colaboradores da Agência Nova

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Pirulitos, neon e Madonna


Marcelo Ferreira *

Quando chegamos, o portão estava aberto. Portando uma lanterna, uma jovem indicava o estacionamento. A chácara, grande e bonita, parecia reformada há pouco tempo. Era um espaço grande, com vários ambientes. Descemos uma rampa escura, iluminada somente pela luz da lua. As pedras brancas colocadas nas laterais separavam um pequeno jardim, ornamentado com flores brancas. 

Do lado esquerdo havia uma área coberta, que servia de pista de dança. O balcão da churrasqueira foi transformado em bar. Quatros geladeiras estavam repletas de cerveja e refrigerante, vendidos a R$ 2. A febre de todas as baladas, o H2O, custava R$ 3. Duas bandejas de pirulitos chamavam atenção.
Uma mesa encostada servia de caixa. Uma garota simpática, de cabelos longos cacheados, vendia as fichas. De frente para o bar, o DJ comandava ao mesmo tempo o som, máquina de fumaça, luzes coloridas e néon. O clima era o de uma autêntica boate gay.
Almir era a pessoa mais procurada da festa. Com cerca de 1,70m de altura, olhos castanhos, sorridente, ele recepcionava os convidados. Seu celular tocava a todo momento.
Ao pagar a entrada - R$ 10 - recebi uma pulseira de néon. Havia diferentes cores - azul, verde, rosa, amarelo  e o cliente podia escolher a tonalidade preferida. 
Descendo pela lateral da churrasqueira, uma trilha levava à casa, que estava aberta. A sala servia com um lounge, com sofás, cadeiras, almofadas e mesa de centro. Na varanda havia uma mesa de sinuca e outra de pebolim, a mais freqüentada pelas meninas.

Público exigente
Uma e meia da madrugada e a pista já estava bombando. Todos dançavam de forma frenética. Me aproximei do DJ e, sem rodeios, perguntei se era gay. O jovem fez um sinal com a mão e pediu para eu esperar. Apertou um botão no meio dos vários instalados em sua mesa de som e retirou o fone de ouvido. Dançando com a cabeça, sorriu:
- Não sou gay, mas gosto muito de tocar em baladas GLS. Minha namorada sempre vem comigo,  afirmou, tomando um gole de cerveja e apertando novamente os botões da mesa, enquanto levantava o braço com o grito da galera que dançava. Renan trajava camiseta azul, bermuda xadrez e tênis Nike.
- Quando toco em baladas hetero pode rolar de tudo, mesmo uma música que não seja eletrônica, como, axé, funk, ou até mesmo um pagode. Mesmo assim, eles [os heterossexuais] vão dançar. O público gay, não. Se eu colocar uma batida fraca, eles reclamam. E seu eu tocar outra música que não seja eletrônica, não me chamam mais para tocar em suas festas.
As baladas do circuito GLS são marcadas por remixes e hits inéditos. Se o som estourar no mundo gay, certamente irá para o topo das paradas. 
- Às vezes acabo conhecendo uma música através do meu irmão, que é gay. Aí vou procurar na net. Fico assustado com a rapidez que as músicas chegam até eles.
Uma turma de meninas dançava timidamente no canto esquerdo do bar. Erampatricinhas com muito brilho, bolsas grandes de verniz a tiracolo e scarpins com saltos finos. Atraíam os olhares de um grupo de meninos. Eduardo, apelidado pelos amigos de Pulga, tem 27 anos e se diz freqüentador assíduo de baladas alternativas. 
- Aprendi a gostar desse tipo de festa com uma antiga namorada, que tinha vários amigos gays. Não tenho preconceito, mas a primeira vez que fui não soltei a mão dela. Hoje nem ligo. Me acostumei a ver dois homens se beijando.
- O Pulga é gay, gritou Renato, que parecia ser o mais engraçadinho da turma. Ele vestia uma calça jeans de boca justa, e camiseta verde estampada com o rosto de uma mulher meio anos 80.
-Eu pego mais mulher em balada gay do que hetero. Gosto do som e das pessoas. Elas respeitam a gente, além de dar altas risadas. Me divirto muito, explicou Pulga.

Grife, da cabeça aos pés
Todos ali tinham algo em comum: roupas de grife e tênis importados. O nome das grifes aparece de forma gritante nas roupas. Coca Cola,  Zoomp, Cavalera, Colcci, Acostamento, Ellus, Opera Rock, Amp (A mulher do Padre), Diesel e Doc Dog  são as preferidas.
- Eu e meu namorado não conseguimos usar outra coisa que não roupa de grife. Todo gay é assim, diz Fernando, enquanto abraça Gustavo, seu namorado há seis meses. 
Gustavo e Fernando estavam com jeans da marca Coca Cola, camisetas da Colcci e tênis da Puma. 
- Quando gostamos de algo dizemos: "Isso é tombo", ou "tombou tudo", contou Gustavo, apontando para o namorado que girava na pista. "Don't stop the music é tudo! Ela arrebenta!", comentou, se referindo à cantora Rihanna, que estourou no mundo gay.
Duas horas da manhã, auge da festa. A pista estava cheia. Mas as duas músicas mais esperadas da festa estavam por vir. Almir, o promoter, pediu para baixar o som:
- Chegou a hora que vocês todos queriam. Os dois lançamentos da semana estão na minha mão. Vocês querem que toque? Todos gritaram que sim, as luzes se apagaram e a impressão era a de que a festa começaria naquele momento. Em meio a muita fumaça, a luz verde neon criava desenhos abstratos no ar, feitos por um tipo de laser.
Renan soltou a nova música da Madonna, que lançou o novo álbum, Hard Candy, no final de abril. O nome da pop star inspirou os pirulitos colocados sobre o balcão. Cada baladeiro já estava com o seu. O DJ tocou 4 minute, carro-chefe do novo disco de Madonna. O público foi ao delírio. Logo em seguida, Break the ice, da perturbada cantora Britney Spears.
Almir largou o microfone, gritando: ?Isso sim é tombo! Madonna sabe me fazer feliz!?. Em seguida, abraçou um grupo de amigos que pulavam.
Quatro e meia da manhã. Depois de ter rodado a noite toda, encontro novamente Almir. Com cara de aliviado, pergunta se gostei da festa.
- Dever cumprido. Adoro isso. Sempre gostei de organizar festas para reunir os amigos. Alugamos a chácara e convidamos pessoas que gostamos. Fazemos isso pelo menos quatro vezes no ano, completou, me dando um abraço e agradecendo minha presença.

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova

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ESPECIAL - Qualquer dia, faça uma visita


Kendra Martins *

Domingo à tarde. Era um dia bonito, ensolarado. Na rua Capitão Flamínio Ferreira, o silêncio era quebrado apenas pelos carros que estacionavam aos poucos em frente ao número 489. Ali se localiza o asilo João Kuhl Filho. Com 3.170 m² de área construída, funciona há 90 anos em Limeira. É o maior e mais conhecido da cidade.

Na entrada principal, árvores formam uma sombra acolhedora. Uma placa apoiada em dois pilares reforçados identifica o lugar. Na portaria, irmã Luzia, uma simpática freira, acolhia os visitantes. Estatura mediana, morena e gordinha, ela trajava um hábito branco e preto. Atenciosa com os visitantes, logo nos levou para conhecer o interior do asilo.
Conhecer os idosos internados naquele local e saber um pouquinho de suas histórias de vida parecia uma idéia empolgante, apesar do tempo escasso para as visitas: domingo, das duas às quatro da tarde.
Na passagem pela estreita porta de entrada, avistei um corredor largo que dava acesso à porta do refeitório. A cor laranja predomina naquele lugar. As paredes e até o piso apresentam essa coloração forte. Os jardins estavam limpos e a grama, bem aparada. Flores coloridas davam alegria e harmonia ao pátio.
Atravessei o corredor e entrei no refeitório. Três funcionárias limpavam as mesas compridas de madeira e as cadeiras brancas de plástico. Outras duas varriam o chão de piso frio, conversavam e davam risadas. Continuei a caminhar. Estava perto dos dormitórios masculinos quando encontrei uma pequena sala de descanso. Nas paredes, o tom azul claro proporcionava uma iluminação agradável. Sentados, cinco idosos assistiam atentamente o Programa do Faustão, enquanto um outro, deficiente visual, apenas ouvia o barulho da TV.

O exemplo de "seu Peru"
Antonio Pantoja, mais conhecido por Seu Peru, 73 anos, estava sentado numa poltrona marrom. Elegante, vestia camisa branca e calça social. Caminhei em sua direção e rapidamente iniciei um bate-papo. Homem forte e lúcido, Pantoja tem cegueira completa, causada por glaucoma. Há dois anos convivendo com esse problema, ele leva a vida com coragem e animação.
Viúvo há um ano e meio, sem filhos e nem parentes próximos, Pantoja vivia sozinho em Limeira. Após a morte da mulher, decidiu ir para o asilo. Seu bom humor contagiou os 42 funcionários, entre equipe técnica, de apoio e administração. Seus amigos, 30 homens e 40 mulheres, gostam de suas brincadeiras. 
Seu Peru sorri e diz:
- Adoro aqui. É bom!
O apelido engraçado se deve ao hábito que Pantoja tem de imitar os sons emitidos pelo animal. O costume vem da infância, que passou no sítio da avó, em Araras. Na despedida, comenta:
- Sou feliz porque Deus está do meu lado.
Faltavam dez minutos para o término das visitas quando acelerei os passos em direção à horta do asilo. Algumas idosas que podiam caminhar normalmente acompanharam o rápido percurso nos corredores estreitos. Toda essa pressa era contra o relógio, que rodava sem piedade.
A área externa estava linda, tomada por flores, pinheiros, verduras e legumes. Parecia até um grande arco-íris, farta de alimentos sem agrotóxicos. As flores são plantadas pelos próprios idosos.
Quatro horas. O horário de visitas havia acabado. Abracei e beijei os velhinhos que estavam ao alcance. Bons velhinhos. Atenciosos com todos. Retornei pelo mesmo caminho que havia feito antes. Passei pela recepção. A freira Luzia se despedia dos visitantes e voluntários. Caminhei até a rua e parei em frente ao asilo, na calçada de pedras acinzentadas. Comovida com tudo o que havia visto naquele lugar, senti uma grande sensação de solidariedade.

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaboradora da Agência Nova

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ESPECIAL - O segredo de Alex


Paloma Prates *

Alex Vieira da Silva, 19 anos, é estudante do terceiro ano do ensino médio. Ele trabalha como monitor de matemática em um centro educacional de Limeira, que oferece atendimento a pessoas portadoras de deficiência auditiva. Como muitos jovens de sua geração, adora ir ao shopping e ao cinema.

As espinhas no rosto e o corpo magro, escondido por camiseta e calças largas, fazem Alex parecer um garoto de 15 anos. Seu dia a dia seria o mesmo das pessoas de sua idade, não fosse um obstáculo que enfrenta todos os dias: a comunicação. Alex nasceu com deficiência auditiva, descoberta quando tinha três anos de idade.
O jovem é acordado todas as manhãs pela mãe. Ela pega em seus braços e o  sacode forte, até despertá-lo do sono profundo. Alex tem um despertador de pulso vibratório, mas o acessório não é suficiente para acordá-lo.
Nos encontramos no local onde trabalha. Sentado em uma cadeira pequena, apropriada para crianças, Alex conta um pouco do seu dia a dia. Não tenho dificuldades para me comunicar com ele, pois fiz um curso básico de Libras (Língua Brasileira de Sinais).
 Alex me explica que o mundo do deficiente auditivo é visual. Seus olhos castanhos, de fato, são bem vivos, ágeis e atentos a qualquer movimento e expressões faciais das pessoas que estão à sua volta.
Logo pela manhã, ele pega ônibus para ir à escola. As compras no supermercado também são feitas sem problemas. Muitas vezes, sai de casa acompanhado de um bloco de papel e caneta, grandes aliados principalmente na ida ao açougue, um dos momentos que mais sente dificuldade para se comunicar. No balcão de atendimento, escreve a quantidade, tipo de carne que deseja e como deve ser cortada. O bloco de papel e a caneta, porém, raramente são usados. Alex tenta ao máximo se comunicar com os ouvintes por meio de gestos, dispensando o uso da Libras. 
A falta de interesse de ouvintes em conhecer o mundo dos portadores de deficiência auditiva e a dificuldade para se comunicar com eles podem ser comprovadas em várias situações. Enquanto caminhamos pela rua, uma senhora nos pára e pede uma informação a Alex. Não participo da conversa para ver a reação da mulher ao saber que o jovem é surdo. Depois de pedir a informação três vezes, ela se irrita. Ele tenta mostrar que é surdo e que não fala, mas a mulher não o compreende. Então explico que ele é deficiente auditivo. Com as bochechas coradas de vergonha, ela se desculpa e vai embora. Alex dá um sorriso e me diz que já está acostumado com essas situações.

Atropelado
Quando se comunica com seus colegas de trabalho, em alguns momentos Alex não olha diretamente para o interlocutor. Ele explica que pessoas como ele, que têm perda de um dos sentidos, ficam com os outros mais aguçados. "No nosso caso, temos a visão periférica mais desenvolvida que a dos ouvintes. Muitas vezes consigo ver os sinais transmitidos pela pessoa que está ao meu lado sem olhar diretamente para ela".
Essa habilidade, porém, não impediu que Alex fosse atropelado duas vezes. A primeira foi quando, distraído, atravessou a rua e não viu uma bicicleta se aproximando. O outro acidente foi menos grave. Ele atravessava a rua quando um carro encostou nele, buzinando. "Nessa vez, tomei só um grande susto. Por isso é importante que estejamos sempre atentos", comenta, rindo.
Não é só fora de casa que Alex encontra dificuldades para se comunicar. Filho de uma família de três irmãos, é o único membro da família que conhece Libras. Quando pergunto o porquê de nenhum dos familiares dominar a Linguagem de Sinais, ele me olha e, com um ar de lamentação, diz que não tiveram e não têm tempo para aprender. "Eles trabalham muito e chegam em casa cansados. Mas me comunico com eles por meio de gestos. Dá para entender".
Um fato chamou minha atenção enquanto acompanhava Alex em seu trabalho. Ele dava explicações a um dos alunos quando parou e perguntou da onde vinha a música. Surpresa, perguntei: "Você ouviu?". Ele respondeu que sim. Quando o som é muito alto, consegue ouvir algumas coisas. Sua deficiência auditiva não é total. No ouvido esquerdo a perda é moderada e no direito, severa.
A música vinha da sala ao lado, onde crianças ensaiavam uma apresentação. O aparelho de som estava conectado a um amplificador, recurso que permite aos deficientes auditivos sentirem as vibrações sonoras e ouvir a música. 
Com um sorriso sempre presente, no final da entrevista Alex deixou um recado: "É importante que todas as pessoas aprendam Libras. Assim elas poderão conhecer o mundo dos surdos e saber que somos capazes e, acima de tudo, iguais a todos". 

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaboradora da Agência Nova

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segunda-feira, 5 de maio de 2008

Mancha Verde canta e vibra pelo Palmeiras

Rogério Rueda *

A uma semana do maior clássico paulista de futebol, Palmeiras x Corinthians, era comentário em todo o país. Os dois times se enfrentariam pela 12º rodada do Campeonato Paulista, um dos mais difíceis e complicados na opinião de especialistas e torcedores do esporte.


Todos os domingos costumo assistir a um jogo de futebol na minha televisão de 14 polegadas, que fica em meu quarto bagunçado. No entanto, dia 2 de março decidi mudar a rotina. Resolvi ir à terra da garoa para ver o clássico com a Mancha Verde, torcida fanática do Palmeiras, e sentir a emoção que é estar naquele ambiente.

Saindo de casa, fui a pé para a sede da Mancha, que fica próxima ao meu bairro, o Jardim Nereide. Pelas ruas um silêncio só, pois aos domingos Limeira se torna pacata e quase não se vê nenhum movimento de carros ou pessoas pela manhã.

Quando cheguei perto da sede já podia escutar alguns batuques bem ritmados e um canto muito alto da torcida palmeirense:


"Palmeiras vai jogar, eu vou. 
Palmeiras vai jogar, eu vou. 
Palmeiras vai jogar, a Mancha atormentar. 
Palmeiras vai jogar, eu vou".

Faltando apenas um quarteirão do local já avistei os ônibus e vans com destino à São Paulo. Torcidas "Mancha Verde" de toda a região estavam lá para se unir. Já eram 11h da manhã quando entrei na sede e fui conversar com o líder da torcida limeirense, Rodrigo Bueno, para pagar o transporte e pegar meu ingresso. Bueno, quando me viu gritou: "ôu, mano, só faltava você. Até pensei que num ia mais". Outros já falavam que "o jornalista chegou". 
Rapidamente, Bueno comandou as pessoas e pediu para os membros da Mancha pegarem pedaços de paus e barras de ferros para levarem no ônibus da torcida limeirense. Como era a primeira vez que participava, vi que o "bicho ia pegar". Um pouco assustado, mas sem demonstrar minhas emoções me assentei no primeiro banco que estava sem ninguém.
 Quando todos já estavam dentro do "busão" - gíria muito usada pela torcida para designar o veículo -, as buzinas começaram a ser acionadas. Com isso começou a festa alvi-verde rumo ao clássico cantando:

"Dá- lhe alegria, alegria no coração 
Daria a vida inteira para ser campeão 
A taça Libertadores: obsessão 
Tem que jogar com a alma e o coração 
Olé, Olé 
Eu canto, eu sou Palmeiras até morrer 
Olé, Olé 
Eu canto, eu sou Palmeiras até morrer".


Com os vidros abertos alguns gritam: "vai, Palmeiras", e as pessoas nas ruas de Limeira olham e acenam com a mão. Uns provocam a torcida, outros incentivam o torcedor e o time. "Palmeiras!", exclama um cidadão, aparentemente idoso, que passava pela calçada. "Esse já deve ter visto muitos jogos do 'Verdão'", pensei.
Durante a viagem, além dos cantos, podia ouvir muitos comentários sobre a regular campanha do time. Uns mais jovens, outros mais velhos, homens e mulheres estavam reunidos para uma única razão, o Palmeiras. Os sorrisos estavam estampados nos rostos de todos os torcedores que tinham plena convicção de que o "Verdão" iria vencer e "embalar" no campeonato.  
Já passadas algumas horas, as pessoas uniformizadas se comunicavam por  telefones para saber em que quilômetro estava a torcida do Corinthians. Com muita agitação e palavras de baixo calão começava-se a falar em parar o ônibus para bater na torcida adversária, mais conhecida como Gaviões da Fiel, chamada pela Mancha Verde de "os Gambás". 
Meu temor aumentou e sem saber o que poderia acontecer, fiquei só observando que a maioria deles não queria saber do jogo e sim travar uma luta para medir forças físicas. Neste momento, o ódio prevalecia na Mancha Verde e o "busão" parou para esperar o ônibus da "Gaviões", que vinha atrás.
Rogério Silva, um dos membros da Mancha, conta que toda vez que tem o clássico há briga entre as torcidas e até mesmo com os policiais. Logo em seguida Bueno exclama: "vamos lá brigar, pega os rojões e quem 'num' agüenta no braço pegue os paus e ferros". Alguns, incentivados por ele e sem pensar no que estavam fazendo, desceram do ônibus, tendo, no entanto, muito cuidado para não serem avistados pela polícia rodoviária. 
Ficamos lá esperando por mais de 20 minutos, até que chegou a mensagem dizendo que os adversários pegaram outra rodovia para fugir. Com isso os torcedores ficaram mais entusiasmados, pois se acharam, naquele momento, superiores.
De volta à estrada rumo ao Morumbi, palco do jogo, mais cantos, batuques, bebidas e cigarros. Chegando à cidade de São Paulo, começaram a soltar rojões de dentro do ônibus, onde começou uma grande festa. Todos, a uma só voz, cantavam o Hino do Palmeiras: "quando surge o alvi-verde imponente no gramado em que a luta o aguarda...". Muita emoção neste momento. O ódio pelos "Gambás" parecia esquecido por enquanto.
Próximo ao Palestra Itália, "casa" do Palmeiras, mais de 25 ônibus são escoltados pela polícia até o Morumbi. "Parecem vagões de trem", diz Silva, ao olhar tantos veículos, um atrás do outro. Nos ônibus, pessoas de todos os tipos e de todos os jeitos. Ao meu lado escuto de um dos torcedores: "hoje vai ter porrada, vamos quebrar os gambás". Silva conta que é preciso tomar muito cuidado nesses jogos, pois tudo pode acontecer.
No Morumbi foi a maior dificuldade para entrar. Por um lado do estádio entrava a torcida do Palmeiras e do outro, a do Corinthians. Antes mesmo do início do duelo, policiais e torcedores corintianos entraram em conflito nas ruas. Foi uma violência muito grande, de longe eu via a briga e escutava muitos palavrões. 
Mas, enfim, o grande jogo e a grande festa. A torcida não parava de cantar em nenhum momento, ainda mais com o Palmeiras comemorando a queda do Corinthians para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de 2007.
O jogo terminou em 1 x 0. No momento do gol palmeirense todo mundo se abraçava, conhecidos e desconhecidos. A vitória palmeirense fez os torcedores irem ao delírio e até mesmo o "olé, olé e olé" era entoado. Foi um bom jogo de se ver, pois os times buscaram sempre o gol. Quando um não buscou, o Corinthians, o outro  aproveitou. 
 Ao sair do estádio, Bueno contou que a Torcida Mancha Verde de Limeira sempre apóia o Palmeiras em seus jogos, cantando e vibrando muito. Já era noite e a festa continuava com o hino palmeirense: "...sabe bem o que vem pela frente, que a dureza do prélio não tarda. E o Palmeiras no ardor da partida, transformando a lealdade em padrão, sabe sempre levar de vencido e mostrar que de fato é campeão. Defesa que ninguém passa linha atacante de raça, torcida que canta e vibra por nosso alviverde inteiro, que sabe ser brasileiro, ostentando a sua fibra".

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova

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ESPECIAL - Jandirinha, 63, só quer se aposentar


Lucas Campagna *

São seis décadas de vida e cinco de muito trabalho, catando ferro velho nas ruas da cidade de Araras. Além de todas as dificuldades normais da vida, Jandira dos Santos, conhecida como "Dona Jandirinha" ou "Jandirinha Corcundinha", convive com graves problemas na coluna que dificultam seu trabalho.

O trabalho de uma vida inteira resultou na formação de uma corcunda. Em seu casebre, com dois cômodos ? quarto e cozinha - nos fundos da casa de um sobrinho, ela nos recebeu.
- Isso tem cura?
- Não tem, não. Se eu fizer cirurgia vou ficar aleijada.
Com 63 anos e dificuldades físicas e motoras, não coleta mais recicláveis na rua, apenas das pessoas que guardam para que Jandira passe pegar. Apesar disso, ainda circula ao lado do companheiro, Benedito Tristão, e do cachorro Bob, por toda a cidade, coletando materiais que depois são vendidos para o ferro-velho. 
Jandirinha conta que não é fácil encontrar recicláveis. Para ela, hoje existem mais catadores do que papelão na rua. Apesar do trabalho árduo, no mês que vende muito o casal consegue cerca de R$ 150, apenas.
- Assim mesmo vale a pena?
- E tem escolha? Ou a gente faz isso ou morre de fome.
A catadora nasceu em Leme, em 1945, no dia 31 de agosto, mas só foi registrada no dia 12 de setembro daquele ano. A história de pobreza e superação começava ainda naquela época. Ela nasceu na fazenda Nova Graminha. Como o pai não tinha dinheiro naquele dia, precisou esperar receber o ordenado do outro mês para registrá-la.
O trabalho começou logo cedo, aos 11 anos, na antiga fábrica de saco do ex-prefeito Alberto Feres, onde atualmente funciona a Têxtil Assumpção. Jandirinha ficou lá por 22 anos, depois trabalhou na roça e como empregada doméstica.
Há pouco mais de 20 anos, quando sua mãe morreu, Jandirinha conta que ficou internada por três meses no sanatório em decorrência de problemas mentais. Quando voltou para a casa, não encontrou nada.  Os familiares tinham levado tudo. 
Nessa época foi trabalhar na lavoura. Lá, apanhou café e algodão, cortou cana e carpiu. Sempre trazia nas costas sacos com frutas e objetos que ganhava de presente. Andava cerca de 20 quilômetros com o peso nas costas. Depois de alguns anos foi trabalhar de empregada doméstica. 
Na Justiça
Jandirinha começa a recolher ferro-velho quando começou a trabalhar de empregada doméstica.  Seus patrões davam as coisas e ela levava para vender. Depois, passou a trabalhar de dia como empregada e a noite catava papelão e latinha pela rua.
Desde o fim dos anos 90, passou a viver apenas das vendas de ferro-velho. Foi quando a idade e os problemas nas costas começaram a interferir em sua vida. Por falta de condições físicas, ela e o companheiro não podem catar materiais todos os dias.
Benedito recebe de aposentadoria um salário mínimo. Mas que não é suficiente. 
- Você recebe ajuda da Prefeitura?
- O Dito [Benedito] ganha uma cesta básica de um ex-patrão. A Prefeitura até ofereceu para gente. Mas não é isso que a gente precisa. É melhor dar para quem está precisando mais.
- Então, do que vocês precisam?
- Eu quero me aposentar para parar de ter que catar ferro-velho.
Jandirinha fez exames no Hospital das Clínicas, em São Paulo. O laudo médico aponta que ela não tem mais condições de trabalhar. A Justiça já decidiu sobre o caso e obrigou o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a aposentá-la. No entanto, o órgão recorreu da decisão, que agora depende de outra decisão judicial.
- Com todas essas dificuldades, você se considera feliz?
- Eu tenho fé e acredito muito em Deus. Apesar de tudo, eu sou muito feliz.

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova

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ESPECIAL - Intervenções cirúrgicas pelo riso


Juliano Schiavo *

São engraçados. Têm roupas e pinturas divertidas. Apelidos? Sim. Mas quem são eles? São doutores, especializados na faculdade do ouvir, conversar e brincar. São PHDs do riso. Para os pacientes, são anjos. Para os que observam, podem ser meio malucos, ou talvez completamente. Eles são os Anjos da Alegria, voluntários de uma associação sem fins lucrativos que dedicam algumas horas por semana ao entretenimento das pessoas. 

Naquele domingo, a brincadeira aconteceu no Lar dos Velhinhos São Vicente de Paulo, de Americana, e já começou logo na entrada. Ainda sem maquiagem, os voluntários cumprimentam os velhinhos sentados nos bancos. Os primeiros sorrisos brotam e a trupe converge para uma sala reservada, onde dá início a transformação. 
O lápis corre as curvas do rosto. Delimita, marca e deixa o local propício para receber a tinta. Dedos se transformam num pincel, um pincel humano, que colore a face dos profissionais da alegria. Quem não tem muita prática chama o parceiro ao lado. E em poucos minutos a tinta a base de água já está no rosto, com formas variadas. Bexigas, flores, corações, estrelas. É uma tela de tecido humano que se colore para garantir a máscara divertida. 
Um caderno de capa dura azul corre de mão em mão. É o controle de presença dos voluntários, uma forma de saber quem esteve em tal dia e tal evento. Nem sempre todos assinam. Naquela ocasião, 22 Anjos da Alegria participaram da visita.

Cores da alegria
No Brasil foram consumidas cerca de 502,3 milhões de unidades de produtos de maquiagem em 2006. Para esses anjos voluntários, poucas latinhas de tinta de rosto bastam. Amarelo, rosa, vermelho, verde, laranja. Cores vivas e que remetem à alegria são as mais utilizadas. 
Retrato perfeito de colorido é Elizabeth Aparecida da Silva, ou melhor, Dra. Coringa.  Com sua saia de bailarina, ceroula com catapora invertida, meias grandes, sobrancelhas rosas e uma flor multicolorida na bochecha, ela doa mais uma vez seu tempo. Em seu dente, um pequeno risco vermelho, originado do batom chamativo. Abrindo um sorriso, explica: "No primeiro dia que entrei para os Anjos, uma pessoa pintou minha boca de vermelho. Então, recebi o nome de Coringa". 
Os lábios vermelhos viraram sua identidade e foram transferidos ao filho, não por carga genética, mas por influência do voluntariado. José Roberto Basso Júnior - o Dr. Coringuinha - sorri timidamente com sua boca avermelhada de contorno azul. Tem uma gravata com crachá de identificação e diz rapidamente sobre o que acha de tudo aquilo: "É divertido". E parte para a brincadeira. 
No salão principal, os velhinhos recepcionam os brincalhões. A música ao vivo corre solta e ecoa por todos os cantos da sala. Parece flutuar até os ouvidos desatentos de uma senhora que brinca com um palhaço de sapatos enormes. É uma festa, com muita cor, brincadeira e música. Os outros doutores interagem pelo salão.
O som percorre o corredor. Nele, diversas portas e, dentro de cada uma, um alojamento comunitário. No número seis há uma simpática senhora de 69 anos chamada Zoraide Dias. É conhecida como a poetisa do Lar.
Deitada na cama, Zoraide espera pelos visitantes. As cortinas de um tecido fino balançam ao som do vento e deixam que a luz do sol ilumine sua alva face. Acima da janela, um crucifixo. Os olhos castanhos claros contrastam com a tiara vermelha, que adorna sua cabeça de finos cabelos grisalho-acinzentados. Com as frágeis mãos manchadas pela idade, dedos finos com unhas bem delineadas e pintadas de um rosa claro, Zoraide, a poetisa, gesticula e diz:
- O homem não deixa de viver quando morre, mas sim quando deixa de amar.
A palhacinha Churaskinho, ou Mariane Mirandola, ajoelha-se diante da poetiza. Dedica-lhe seu tempo e conversa. Com sua roupa colorida, seus pés de palhaço, sua cara pintada, Dra. Churaskinho se restringe a doar seus ouvidos e suas palavras. Como uma habilidosa cirurgiã-médica, usa as ferramentas ao seu dispor: a conversa e a brincadeira.  Um palhaço de óculos com desenho da bandeira do Brasil entrecorta o diálogo. Zoraide sorri e emenda ternamente:
- Eu sou o picadeiro, você é o palhaço - e volta a conversar. 

Última cantoria
No salão central, a música e a dança correm livres, mas é chegada a hora de partir. Os especialistas em risos formam uma roda humana e fazem uma última cantoria. O salão, antes repleto de palhaços, perde aos poucos seu colorido. As mãos balançam num aceno e os velhinhos se despedem. Uma enfermeira passa com um carrinho repleto de remédios e injeções.
No País, existem cerca de seis mil asilos. No estado de São Paulo, cerca de dois mil. Em Americana, apenas dois. Em um desses ? o Lar dos Velhinhos ? 82 idosos são atendidos. Quarenta e duas mulheres e 40 homens, cada um com sua história de vida. Naquele dia, tiveram mais uma recordação.
Após se despedirem dos seus pacientes, a trupe se reúne na entrada do abrigo. Limpam a cara com lenços e tiram a tinta. Dão as mãos, fazem um círculo e iniciam um Pai-Nosso. Alguns fecham os olhos, outros olham para o chão. Terminam de rezar e voltam a aprontar: pegam o novato, narrador dessa história, e pintam-no com tinta preta. 
- Como essa tinta sempre sobra, a gente costuma batizar as pessoas com ela. 
E se divertem com a brincadeira. 

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova

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