Juliano Schiavo *
Naquele domingo, a brincadeira aconteceu no Lar dos Velhinhos São Vicente de Paulo, de Americana, e já começou logo na entrada. Ainda sem maquiagem, os voluntários cumprimentam os velhinhos sentados nos bancos. Os primeiros sorrisos brotam e a trupe converge para uma sala reservada, onde dá início a transformação.
O lápis corre as curvas do rosto. Delimita, marca e deixa o local propício para receber a tinta. Dedos se transformam num pincel, um pincel humano, que colore a face dos profissionais da alegria. Quem não tem muita prática chama o parceiro ao lado. E em poucos minutos a tinta a base de água já está no rosto, com formas variadas. Bexigas, flores, corações, estrelas. É uma tela de tecido humano que se colore para garantir a máscara divertida.
Um caderno de capa dura azul corre de mão em mão. É o controle de presença dos voluntários, uma forma de saber quem esteve em tal dia e tal evento. Nem sempre todos assinam. Naquela ocasião, 22 Anjos da Alegria participaram da visita.
Cores da alegria
No Brasil foram consumidas cerca de 502,3 milhões de unidades de produtos de maquiagem em 2006. Para esses anjos voluntários, poucas latinhas de tinta de rosto bastam. Amarelo, rosa, vermelho, verde, laranja. Cores vivas e que remetem à alegria são as mais utilizadas.
Retrato perfeito de colorido é Elizabeth Aparecida da Silva, ou melhor, Dra. Coringa. Com sua saia de bailarina, ceroula com catapora invertida, meias grandes, sobrancelhas rosas e uma flor multicolorida na bochecha, ela doa mais uma vez seu tempo. Em seu dente, um pequeno risco vermelho, originado do batom chamativo. Abrindo um sorriso, explica: "No primeiro dia que entrei para os Anjos, uma pessoa pintou minha boca de vermelho. Então, recebi o nome de Coringa".
Os lábios vermelhos viraram sua identidade e foram transferidos ao filho, não por carga genética, mas por influência do voluntariado. José Roberto Basso Júnior - o Dr. Coringuinha - sorri timidamente com sua boca avermelhada de contorno azul. Tem uma gravata com crachá de identificação e diz rapidamente sobre o que acha de tudo aquilo: "É divertido". E parte para a brincadeira.
No salão principal, os velhinhos recepcionam os brincalhões. A música ao vivo corre solta e ecoa por todos os cantos da sala. Parece flutuar até os ouvidos desatentos de uma senhora que brinca com um palhaço de sapatos enormes. É uma festa, com muita cor, brincadeira e música. Os outros doutores interagem pelo salão.
O som percorre o corredor. Nele, diversas portas e, dentro de cada uma, um alojamento comunitário. No número seis há uma simpática senhora de 69 anos chamada Zoraide Dias. É conhecida como a poetisa do Lar.
Deitada na cama, Zoraide espera pelos visitantes. As cortinas de um tecido fino balançam ao som do vento e deixam que a luz do sol ilumine sua alva face. Acima da janela, um crucifixo. Os olhos castanhos claros contrastam com a tiara vermelha, que adorna sua cabeça de finos cabelos grisalho-acinzentados. Com as frágeis mãos manchadas pela idade, dedos finos com unhas bem delineadas e pintadas de um rosa claro, Zoraide, a poetisa, gesticula e diz:
- O homem não deixa de viver quando morre, mas sim quando deixa de amar.
A palhacinha Churaskinho, ou Mariane Mirandola, ajoelha-se diante da poetiza. Dedica-lhe seu tempo e conversa. Com sua roupa colorida, seus pés de palhaço, sua cara pintada, Dra. Churaskinho se restringe a doar seus ouvidos e suas palavras. Como uma habilidosa cirurgiã-médica, usa as ferramentas ao seu dispor: a conversa e a brincadeira. Um palhaço de óculos com desenho da bandeira do Brasil entrecorta o diálogo. Zoraide sorri e emenda ternamente:
- Eu sou o picadeiro, você é o palhaço - e volta a conversar.
Última cantoria
No salão central, a música e a dança correm livres, mas é chegada a hora de partir. Os especialistas em risos formam uma roda humana e fazem uma última cantoria. O salão, antes repleto de palhaços, perde aos poucos seu colorido. As mãos balançam num aceno e os velhinhos se despedem. Uma enfermeira passa com um carrinho repleto de remédios e injeções.
No País, existem cerca de seis mil asilos. No estado de São Paulo, cerca de dois mil. Em Americana, apenas dois. Em um desses ? o Lar dos Velhinhos ? 82 idosos são atendidos. Quarenta e duas mulheres e 40 homens, cada um com sua história de vida. Naquele dia, tiveram mais uma recordação.
Após se despedirem dos seus pacientes, a trupe se reúne na entrada do abrigo. Limpam a cara com lenços e tiram a tinta. Dão as mãos, fazem um círculo e iniciam um Pai-Nosso. Alguns fecham os olhos, outros olham para o chão. Terminam de rezar e voltam a aprontar: pegam o novato, narrador dessa história, e pintam-no com tinta preta.
- Como essa tinta sempre sobra, a gente costuma batizar as pessoas com ela.
E se divertem com a brincadeira.

