Lucas Campagna *
O trabalho de uma vida inteira resultou na formação de uma corcunda. Em seu casebre, com dois cômodos ? quarto e cozinha - nos fundos da casa de um sobrinho, ela nos recebeu.
- Isso tem cura?
- Não tem, não. Se eu fizer cirurgia vou ficar aleijada.
Com 63 anos e dificuldades físicas e motoras, não coleta mais recicláveis na rua, apenas das pessoas que guardam para que Jandira passe pegar. Apesar disso, ainda circula ao lado do companheiro, Benedito Tristão, e do cachorro Bob, por toda a cidade, coletando materiais que depois são vendidos para o ferro-velho.
Jandirinha conta que não é fácil encontrar recicláveis. Para ela, hoje existem mais catadores do que papelão na rua. Apesar do trabalho árduo, no mês que vende muito o casal consegue cerca de R$ 150, apenas.
- Assim mesmo vale a pena?
- E tem escolha? Ou a gente faz isso ou morre de fome.
A catadora nasceu em Leme, em 1945, no dia 31 de agosto, mas só foi registrada no dia 12 de setembro daquele ano. A história de pobreza e superação começava ainda naquela época. Ela nasceu na fazenda Nova Graminha. Como o pai não tinha dinheiro naquele dia, precisou esperar receber o ordenado do outro mês para registrá-la.
O trabalho começou logo cedo, aos 11 anos, na antiga fábrica de saco do ex-prefeito Alberto Feres, onde atualmente funciona a Têxtil Assumpção. Jandirinha ficou lá por 22 anos, depois trabalhou na roça e como empregada doméstica.
Há pouco mais de 20 anos, quando sua mãe morreu, Jandirinha conta que ficou internada por três meses no sanatório em decorrência de problemas mentais. Quando voltou para a casa, não encontrou nada. Os familiares tinham levado tudo.
Nessa época foi trabalhar na lavoura. Lá, apanhou café e algodão, cortou cana e carpiu. Sempre trazia nas costas sacos com frutas e objetos que ganhava de presente. Andava cerca de 20 quilômetros com o peso nas costas. Depois de alguns anos foi trabalhar de empregada doméstica.
Na Justiça
Jandirinha começa a recolher ferro-velho quando começou a trabalhar de empregada doméstica. Seus patrões davam as coisas e ela levava para vender. Depois, passou a trabalhar de dia como empregada e a noite catava papelão e latinha pela rua.
Desde o fim dos anos 90, passou a viver apenas das vendas de ferro-velho. Foi quando a idade e os problemas nas costas começaram a interferir em sua vida. Por falta de condições físicas, ela e o companheiro não podem catar materiais todos os dias.
Benedito recebe de aposentadoria um salário mínimo. Mas que não é suficiente.
- Você recebe ajuda da Prefeitura?
- O Dito [Benedito] ganha uma cesta básica de um ex-patrão. A Prefeitura até ofereceu para gente. Mas não é isso que a gente precisa. É melhor dar para quem está precisando mais.
- Então, do que vocês precisam?
- Eu quero me aposentar para parar de ter que catar ferro-velho.
Jandirinha fez exames no Hospital das Clínicas, em São Paulo. O laudo médico aponta que ela não tem mais condições de trabalhar. A Justiça já decidiu sobre o caso e obrigou o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a aposentá-la. No entanto, o órgão recorreu da decisão, que agora depende de outra decisão judicial.
- Com todas essas dificuldades, você se considera feliz?
- Eu tenho fé e acredito muito em Deus. Apesar de tudo, eu sou muito feliz.
* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova

