Rogério Rueda *
A uma semana do maior clássico paulista de futebol, Palmeiras x Corinthians, era comentário em todo o país. Os dois times se enfrentariam pela 12º rodada do Campeonato Paulista, um dos mais difíceis e complicados na opinião de especialistas e torcedores do esporte.
Todos os domingos costumo assistir a um jogo de futebol na minha televisão de 14 polegadas, que fica em meu quarto bagunçado. No entanto, dia 2 de março decidi mudar a rotina. Resolvi ir à terra da garoa para ver o clássico com a Mancha Verde, torcida fanática do Palmeiras, e sentir a emoção que é estar naquele ambiente.
Saindo de casa, fui a pé para a sede da Mancha, que fica próxima ao meu bairro, o Jardim Nereide. Pelas ruas um silêncio só, pois aos domingos Limeira se torna pacata e quase não se vê nenhum movimento de carros ou pessoas pela manhã.
Quando cheguei perto da sede já podia escutar alguns batuques bem ritmados e um canto muito alto da torcida palmeirense:
"Palmeiras vai jogar, eu vou.
Palmeiras vai jogar, eu vou.
Palmeiras vai jogar, a Mancha atormentar.
Palmeiras vai jogar, eu vou".
Faltando apenas um quarteirão do local já avistei os ônibus e vans com destino à São Paulo. Torcidas "Mancha Verde" de toda a região estavam lá para se unir. Já eram 11h da manhã quando entrei na sede e fui conversar com o líder da torcida limeirense, Rodrigo Bueno, para pagar o transporte e pegar meu ingresso. Bueno, quando me viu gritou: "ôu, mano, só faltava você. Até pensei que num ia mais". Outros já falavam que "o jornalista chegou".
Rapidamente, Bueno comandou as pessoas e pediu para os membros da Mancha pegarem pedaços de paus e barras de ferros para levarem no ônibus da torcida limeirense. Como era a primeira vez que participava, vi que o "bicho ia pegar". Um pouco assustado, mas sem demonstrar minhas emoções me assentei no primeiro banco que estava sem ninguém.
Quando todos já estavam dentro do "busão" - gíria muito usada pela torcida para designar o veículo -, as buzinas começaram a ser acionadas. Com isso começou a festa alvi-verde rumo ao clássico cantando:
"Dá- lhe alegria, alegria no coração
Daria a vida inteira para ser campeão
A taça Libertadores: obsessão
Tem que jogar com a alma e o coração
Olé, Olé
Eu canto, eu sou Palmeiras até morrer
Olé, Olé
Eu canto, eu sou Palmeiras até morrer".
Com os vidros abertos alguns gritam: "vai, Palmeiras", e as pessoas nas ruas de Limeira olham e acenam com a mão. Uns provocam a torcida, outros incentivam o torcedor e o time. "Palmeiras!", exclama um cidadão, aparentemente idoso, que passava pela calçada. "Esse já deve ter visto muitos jogos do 'Verdão'", pensei.
Durante a viagem, além dos cantos, podia ouvir muitos comentários sobre a regular campanha do time. Uns mais jovens, outros mais velhos, homens e mulheres estavam reunidos para uma única razão, o Palmeiras. Os sorrisos estavam estampados nos rostos de todos os torcedores que tinham plena convicção de que o "Verdão" iria vencer e "embalar" no campeonato.
Já passadas algumas horas, as pessoas uniformizadas se comunicavam por telefones para saber em que quilômetro estava a torcida do Corinthians. Com muita agitação e palavras de baixo calão começava-se a falar em parar o ônibus para bater na torcida adversária, mais conhecida como Gaviões da Fiel, chamada pela Mancha Verde de "os Gambás".
Meu temor aumentou e sem saber o que poderia acontecer, fiquei só observando que a maioria deles não queria saber do jogo e sim travar uma luta para medir forças físicas. Neste momento, o ódio prevalecia na Mancha Verde e o "busão" parou para esperar o ônibus da "Gaviões", que vinha atrás.
Rogério Silva, um dos membros da Mancha, conta que toda vez que tem o clássico há briga entre as torcidas e até mesmo com os policiais. Logo em seguida Bueno exclama: "vamos lá brigar, pega os rojões e quem 'num' agüenta no braço pegue os paus e ferros". Alguns, incentivados por ele e sem pensar no que estavam fazendo, desceram do ônibus, tendo, no entanto, muito cuidado para não serem avistados pela polícia rodoviária.
Ficamos lá esperando por mais de 20 minutos, até que chegou a mensagem dizendo que os adversários pegaram outra rodovia para fugir. Com isso os torcedores ficaram mais entusiasmados, pois se acharam, naquele momento, superiores.
De volta à estrada rumo ao Morumbi, palco do jogo, mais cantos, batuques, bebidas e cigarros. Chegando à cidade de São Paulo, começaram a soltar rojões de dentro do ônibus, onde começou uma grande festa. Todos, a uma só voz, cantavam o Hino do Palmeiras: "quando surge o alvi-verde imponente no gramado em que a luta o aguarda...". Muita emoção neste momento. O ódio pelos "Gambás" parecia esquecido por enquanto.
Próximo ao Palestra Itália, "casa" do Palmeiras, mais de 25 ônibus são escoltados pela polícia até o Morumbi. "Parecem vagões de trem", diz Silva, ao olhar tantos veículos, um atrás do outro. Nos ônibus, pessoas de todos os tipos e de todos os jeitos. Ao meu lado escuto de um dos torcedores: "hoje vai ter porrada, vamos quebrar os gambás". Silva conta que é preciso tomar muito cuidado nesses jogos, pois tudo pode acontecer.
No Morumbi foi a maior dificuldade para entrar. Por um lado do estádio entrava a torcida do Palmeiras e do outro, a do Corinthians. Antes mesmo do início do duelo, policiais e torcedores corintianos entraram em conflito nas ruas. Foi uma violência muito grande, de longe eu via a briga e escutava muitos palavrões.
Mas, enfim, o grande jogo e a grande festa. A torcida não parava de cantar em nenhum momento, ainda mais com o Palmeiras comemorando a queda do Corinthians para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro de 2007.
O jogo terminou em 1 x 0. No momento do gol palmeirense todo mundo se abraçava, conhecidos e desconhecidos. A vitória palmeirense fez os torcedores irem ao delírio e até mesmo o "olé, olé e olé" era entoado. Foi um bom jogo de se ver, pois os times buscaram sempre o gol. Quando um não buscou, o Corinthians, o outro aproveitou.
Ao sair do estádio, Bueno contou que a Torcida Mancha Verde de Limeira sempre apóia o Palmeiras em seus jogos, cantando e vibrando muito. Já era noite e a festa continuava com o hino palmeirense: "...sabe bem o que vem pela frente, que a dureza do prélio não tarda. E o Palmeiras no ardor da partida, transformando a lealdade em padrão, sabe sempre levar de vencido e mostrar que de fato é campeão. Defesa que ninguém passa linha atacante de raça, torcida que canta e vibra por nosso alviverde inteiro, que sabe ser brasileiro, ostentando a sua fibra".
* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova
