Marcelo Ferreira *
Do lado esquerdo havia uma área coberta, que servia de pista de dança. O balcão da churrasqueira foi transformado em bar. Quatros geladeiras estavam repletas de cerveja e refrigerante, vendidos a R$ 2. A febre de todas as baladas, o H2O, custava R$ 3. Duas bandejas de pirulitos chamavam atenção.
Uma mesa encostada servia de caixa. Uma garota simpática, de cabelos longos cacheados, vendia as fichas. De frente para o bar, o DJ comandava ao mesmo tempo o som, máquina de fumaça, luzes coloridas e néon. O clima era o de uma autêntica boate gay.
Almir era a pessoa mais procurada da festa. Com cerca de 1,70m de altura, olhos castanhos, sorridente, ele recepcionava os convidados. Seu celular tocava a todo momento.
Ao pagar a entrada - R$ 10 - recebi uma pulseira de néon. Havia diferentes cores - azul, verde, rosa, amarelo e o cliente podia escolher a tonalidade preferida.
Descendo pela lateral da churrasqueira, uma trilha levava à casa, que estava aberta. A sala servia com um lounge, com sofás, cadeiras, almofadas e mesa de centro. Na varanda havia uma mesa de sinuca e outra de pebolim, a mais freqüentada pelas meninas.
Público exigente
Uma e meia da madrugada e a pista já estava bombando. Todos dançavam de forma frenética. Me aproximei do DJ e, sem rodeios, perguntei se era gay. O jovem fez um sinal com a mão e pediu para eu esperar. Apertou um botão no meio dos vários instalados em sua mesa de som e retirou o fone de ouvido. Dançando com a cabeça, sorriu:
- Não sou gay, mas gosto muito de tocar em baladas GLS. Minha namorada sempre vem comigo, afirmou, tomando um gole de cerveja e apertando novamente os botões da mesa, enquanto levantava o braço com o grito da galera que dançava. Renan trajava camiseta azul, bermuda xadrez e tênis Nike.
- Quando toco em baladas hetero pode rolar de tudo, mesmo uma música que não seja eletrônica, como, axé, funk, ou até mesmo um pagode. Mesmo assim, eles [os heterossexuais] vão dançar. O público gay, não. Se eu colocar uma batida fraca, eles reclamam. E seu eu tocar outra música que não seja eletrônica, não me chamam mais para tocar em suas festas.
As baladas do circuito GLS são marcadas por remixes e hits inéditos. Se o som estourar no mundo gay, certamente irá para o topo das paradas.
- Às vezes acabo conhecendo uma música através do meu irmão, que é gay. Aí vou procurar na net. Fico assustado com a rapidez que as músicas chegam até eles.
Uma turma de meninas dançava timidamente no canto esquerdo do bar. Erampatricinhas com muito brilho, bolsas grandes de verniz a tiracolo e scarpins com saltos finos. Atraíam os olhares de um grupo de meninos. Eduardo, apelidado pelos amigos de Pulga, tem 27 anos e se diz freqüentador assíduo de baladas alternativas.
- Aprendi a gostar desse tipo de festa com uma antiga namorada, que tinha vários amigos gays. Não tenho preconceito, mas a primeira vez que fui não soltei a mão dela. Hoje nem ligo. Me acostumei a ver dois homens se beijando.
- O Pulga é gay, gritou Renato, que parecia ser o mais engraçadinho da turma. Ele vestia uma calça jeans de boca justa, e camiseta verde estampada com o rosto de uma mulher meio anos 80.
-Eu pego mais mulher em balada gay do que hetero. Gosto do som e das pessoas. Elas respeitam a gente, além de dar altas risadas. Me divirto muito, explicou Pulga.
Grife, da cabeça aos pés
Todos ali tinham algo em comum: roupas de grife e tênis importados. O nome das grifes aparece de forma gritante nas roupas. Coca Cola, Zoomp, Cavalera, Colcci, Acostamento, Ellus, Opera Rock, Amp (A mulher do Padre), Diesel e Doc Dog são as preferidas.
- Eu e meu namorado não conseguimos usar outra coisa que não roupa de grife. Todo gay é assim, diz Fernando, enquanto abraça Gustavo, seu namorado há seis meses.
Gustavo e Fernando estavam com jeans da marca Coca Cola, camisetas da Colcci e tênis da Puma.
- Quando gostamos de algo dizemos: "Isso é tombo", ou "tombou tudo", contou Gustavo, apontando para o namorado que girava na pista. "Don't stop the music é tudo! Ela arrebenta!", comentou, se referindo à cantora Rihanna, que estourou no mundo gay.
Duas horas da manhã, auge da festa. A pista estava cheia. Mas as duas músicas mais esperadas da festa estavam por vir. Almir, o promoter, pediu para baixar o som:
- Chegou a hora que vocês todos queriam. Os dois lançamentos da semana estão na minha mão. Vocês querem que toque? Todos gritaram que sim, as luzes se apagaram e a impressão era a de que a festa começaria naquele momento. Em meio a muita fumaça, a luz verde neon criava desenhos abstratos no ar, feitos por um tipo de laser.
Renan soltou a nova música da Madonna, que lançou o novo álbum, Hard Candy, no final de abril. O nome da pop star inspirou os pirulitos colocados sobre o balcão. Cada baladeiro já estava com o seu. O DJ tocou 4 minute, carro-chefe do novo disco de Madonna. O público foi ao delírio. Logo em seguida, Break the ice, da perturbada cantora Britney Spears.
Almir largou o microfone, gritando: ?Isso sim é tombo! Madonna sabe me fazer feliz!?. Em seguida, abraçou um grupo de amigos que pulavam.
Quatro e meia da manhã. Depois de ter rodado a noite toda, encontro novamente Almir. Com cara de aliviado, pergunta se gostei da festa.
- Dever cumprido. Adoro isso. Sempre gostei de organizar festas para reunir os amigos. Alugamos a chácara e convidamos pessoas que gostamos. Fazemos isso pelo menos quatro vezes no ano, completou, me dando um abraço e agradecendo minha presença.
* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova

