segunda-feira, 19 de maio de 2008

Pirulitos, neon e Madonna


Marcelo Ferreira *

Quando chegamos, o portão estava aberto. Portando uma lanterna, uma jovem indicava o estacionamento. A chácara, grande e bonita, parecia reformada há pouco tempo. Era um espaço grande, com vários ambientes. Descemos uma rampa escura, iluminada somente pela luz da lua. As pedras brancas colocadas nas laterais separavam um pequeno jardim, ornamentado com flores brancas. 

Do lado esquerdo havia uma área coberta, que servia de pista de dança. O balcão da churrasqueira foi transformado em bar. Quatros geladeiras estavam repletas de cerveja e refrigerante, vendidos a R$ 2. A febre de todas as baladas, o H2O, custava R$ 3. Duas bandejas de pirulitos chamavam atenção.
Uma mesa encostada servia de caixa. Uma garota simpática, de cabelos longos cacheados, vendia as fichas. De frente para o bar, o DJ comandava ao mesmo tempo o som, máquina de fumaça, luzes coloridas e néon. O clima era o de uma autêntica boate gay.
Almir era a pessoa mais procurada da festa. Com cerca de 1,70m de altura, olhos castanhos, sorridente, ele recepcionava os convidados. Seu celular tocava a todo momento.
Ao pagar a entrada - R$ 10 - recebi uma pulseira de néon. Havia diferentes cores - azul, verde, rosa, amarelo  e o cliente podia escolher a tonalidade preferida. 
Descendo pela lateral da churrasqueira, uma trilha levava à casa, que estava aberta. A sala servia com um lounge, com sofás, cadeiras, almofadas e mesa de centro. Na varanda havia uma mesa de sinuca e outra de pebolim, a mais freqüentada pelas meninas.

Público exigente
Uma e meia da madrugada e a pista já estava bombando. Todos dançavam de forma frenética. Me aproximei do DJ e, sem rodeios, perguntei se era gay. O jovem fez um sinal com a mão e pediu para eu esperar. Apertou um botão no meio dos vários instalados em sua mesa de som e retirou o fone de ouvido. Dançando com a cabeça, sorriu:
- Não sou gay, mas gosto muito de tocar em baladas GLS. Minha namorada sempre vem comigo,  afirmou, tomando um gole de cerveja e apertando novamente os botões da mesa, enquanto levantava o braço com o grito da galera que dançava. Renan trajava camiseta azul, bermuda xadrez e tênis Nike.
- Quando toco em baladas hetero pode rolar de tudo, mesmo uma música que não seja eletrônica, como, axé, funk, ou até mesmo um pagode. Mesmo assim, eles [os heterossexuais] vão dançar. O público gay, não. Se eu colocar uma batida fraca, eles reclamam. E seu eu tocar outra música que não seja eletrônica, não me chamam mais para tocar em suas festas.
As baladas do circuito GLS são marcadas por remixes e hits inéditos. Se o som estourar no mundo gay, certamente irá para o topo das paradas. 
- Às vezes acabo conhecendo uma música através do meu irmão, que é gay. Aí vou procurar na net. Fico assustado com a rapidez que as músicas chegam até eles.
Uma turma de meninas dançava timidamente no canto esquerdo do bar. Erampatricinhas com muito brilho, bolsas grandes de verniz a tiracolo e scarpins com saltos finos. Atraíam os olhares de um grupo de meninos. Eduardo, apelidado pelos amigos de Pulga, tem 27 anos e se diz freqüentador assíduo de baladas alternativas. 
- Aprendi a gostar desse tipo de festa com uma antiga namorada, que tinha vários amigos gays. Não tenho preconceito, mas a primeira vez que fui não soltei a mão dela. Hoje nem ligo. Me acostumei a ver dois homens se beijando.
- O Pulga é gay, gritou Renato, que parecia ser o mais engraçadinho da turma. Ele vestia uma calça jeans de boca justa, e camiseta verde estampada com o rosto de uma mulher meio anos 80.
-Eu pego mais mulher em balada gay do que hetero. Gosto do som e das pessoas. Elas respeitam a gente, além de dar altas risadas. Me divirto muito, explicou Pulga.

Grife, da cabeça aos pés
Todos ali tinham algo em comum: roupas de grife e tênis importados. O nome das grifes aparece de forma gritante nas roupas. Coca Cola,  Zoomp, Cavalera, Colcci, Acostamento, Ellus, Opera Rock, Amp (A mulher do Padre), Diesel e Doc Dog  são as preferidas.
- Eu e meu namorado não conseguimos usar outra coisa que não roupa de grife. Todo gay é assim, diz Fernando, enquanto abraça Gustavo, seu namorado há seis meses. 
Gustavo e Fernando estavam com jeans da marca Coca Cola, camisetas da Colcci e tênis da Puma. 
- Quando gostamos de algo dizemos: "Isso é tombo", ou "tombou tudo", contou Gustavo, apontando para o namorado que girava na pista. "Don't stop the music é tudo! Ela arrebenta!", comentou, se referindo à cantora Rihanna, que estourou no mundo gay.
Duas horas da manhã, auge da festa. A pista estava cheia. Mas as duas músicas mais esperadas da festa estavam por vir. Almir, o promoter, pediu para baixar o som:
- Chegou a hora que vocês todos queriam. Os dois lançamentos da semana estão na minha mão. Vocês querem que toque? Todos gritaram que sim, as luzes se apagaram e a impressão era a de que a festa começaria naquele momento. Em meio a muita fumaça, a luz verde neon criava desenhos abstratos no ar, feitos por um tipo de laser.
Renan soltou a nova música da Madonna, que lançou o novo álbum, Hard Candy, no final de abril. O nome da pop star inspirou os pirulitos colocados sobre o balcão. Cada baladeiro já estava com o seu. O DJ tocou 4 minute, carro-chefe do novo disco de Madonna. O público foi ao delírio. Logo em seguida, Break the ice, da perturbada cantora Britney Spears.
Almir largou o microfone, gritando: ?Isso sim é tombo! Madonna sabe me fazer feliz!?. Em seguida, abraçou um grupo de amigos que pulavam.
Quatro e meia da manhã. Depois de ter rodado a noite toda, encontro novamente Almir. Com cara de aliviado, pergunta se gostei da festa.
- Dever cumprido. Adoro isso. Sempre gostei de organizar festas para reunir os amigos. Alugamos a chácara e convidamos pessoas que gostamos. Fazemos isso pelo menos quatro vezes no ano, completou, me dando um abraço e agradecendo minha presença.

* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaborador da Agência Nova