Ana Maria Bacocina *
Este é o segundo concurso público para o qual Rodrigo se inscreve. Ele está confiante. Além da estabilidade oferecida por um emprego público, ainda tem o salário de R$1.989,87 mensais ? melhor do que aquele que recebe atualmente.
O que mais o motiva, porém, é a certeza de não precisar mais cumprir as tão indesejáveis horas extras, se passar. O jovem quer fazer uma faculdade à noite, mas sempre que começa algum curso, precisa parar. A empresa onde trabalha é especializada em softwares para computador ? utilizados na área de engenharia mecânica ? e Rodrigo muitas vezes é convocado para fazer horas extras no período da noite e aos sábados. Com isso, não pode assumir nenhum compromisso a longo prazo, pela incerteza de conseguir cumpri-lo.
A falta de tempo é o principal motivo para o jovem temer a concorrência: "Não consigo estudar o quanto deveria e gostaria. É muita coisa, e são poucas as horas que me sobram, além do trabalho. Às vezes começo a ler e durmo sobre os livros".
O conteúdo da prova é extenso. Abrange questões de língua portuguesa, raciocínio lógico, informática, matemática, atualidades, noções de direito constitucional e administrativo, além de ética no serviço público e temas relativos à Previdência e seguro social no Brasil.
Mas Rodrigo é esforçado e não desanima fácil. A uma semana da prova, mantém a calma: "Não adianta eu me desesperar. Preciso estudar porque senão não vou conseguir passar. Nada cai do céu".
A seis dias do concurso, Rodrigo consegue parar para estudar um pouco, depois de trabalhar o dia todo em Araraquara, treinando funcionários na utilização de um programa de computador. Coloca o fone de ouvido e se tranca no quarto para não ser incomodado. Qualquer ruído é capaz de tirar sua concentração.
Já estudou direito e assuntos relativos à Previdência Social. Agora, precisa ver os outros conteúdos. Pega o livro de português, matéria em que tem mais dificuldade, e logo encontra um assunto que precisa relembrar: concordância nominal. É neste tema que fica concentrado durante pouco mais de duas horas, quando percebe que já passam das onze da noite e precisa dormir.
Na terça-feira, faltando cinco dias para a prova, Rodrigo chega mais cedo do trabalho. Após todo o ritual para não ser incomodado, inicia sua leitura - ainda sobre concordância, só que desta vez, verbal. A dificuldade em manter a concentração na matéria é maior, porém, entre cochilos, consegue entender parte do assunto lido.
Quarta-feira: Rodrigo está com mais vontade de estudar do que nos outros dias da semana. Pega dois livros, um de português e outro de matemática, e vai para o quarto. Começa resolvendo alguns problemas de raciocínio lógico. Português, deixa para ver no fim da noite. O tema da vez é regência verbal, no qual o jovem também se confunde um pouco. Ele dedica uma hora e meia ao assunto.
Na quinta-feira, apesar do cansaço, Rodrigo sabe que precisa estudar, pois tem só mais três dias pela frente. E é o que faz durante uma, duas, três horas corridas, quando pára de resolver às questões de matemática e vai dormir.
Na sexta e no sábado o jovem lê conteúdos de português novamente, mas um pouco menos para não se sentir cansado na hora da prova. Vai dormir cedo. Pretende relaxar para conseguir se manter concentrado durante as quatro horas de concurso.
Finalmente chega o dia da prova e Rodrigo está aparentemente calmo. Sai de casa uma hora antes e no meio do caminho percebe que esqueceu o comprovante de inscrição. Volta rapidamente para buscar o documento e consegue chegar com 15 minutos de antecedência à escola onde será aplicado o concurso. Faz a maioria das questões e deixa algumas em branco, porque, a cada resposta errada, uma questão respondida corretamente é anulada. Fica até o fim para poder levar o caderno de questões, já que o sistema rígido da Cespe/UnB, responsável pela aplicação da prova, não permite sequer que se anote o gabarito para conferência.
Questionado sobre se foi bem na prova, Rodrigo, com olhar ansioso, responde que não há como saber: é preciso esperar o gabarito, já que a maioria das questões tinha sido sobre a Previdência.
Meio milhão de pessoas em todo o Brasil participaram do mesmo processo seletivo que Rodrigo e ele é apenas um dos tantos candidatos que dividiram expectativas, vontade e determinação. Em muitos casos, esses sentimentos se unem à preocupação com o desemprego, a luta pela sobrevivência, e a responsabilidade de ter de manter uma família sem condições para isso.
Semanas depois, o resultado do concurso foi divulgado. Dessa vez, Rodrigo não passou. Mas a vida continua e os sonhos também. Ele tem ainda cinco outros concursos para fazer nas semanas seguintes e a esperança persiste: "Não foi dessa vez... Quem sabe da próxima!", conforma-se o jovem.
* Estudante do 7º semestre de Jornalismo e colaboradora da Agência Nova.

