Mariana Antonella dos Santos *
No dia 29 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou o decreto que estabelece o cronograma de implantação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no Brasil. Segundo o site "Comunidade dos Países da Língua Portuguesa" (CPLP), o português, além de ser a língua oficial em oito Estadossoberanos, possui duas grafias, a de Portugal e do Brasil, ambas corretas.
De acordo com o CPLP, a desvantagem dessa dupla grafia seria a dificuldade de partilha de conteúdos entre os países. A comunidade cita como exemplo a limitação do idioma em todas as formas em que a escrita é utilizada. Seja na difusão cultural (literatura, cinema, teatro), na divulgação da informação (jornais, revistas, TV e Internet) e nas relações comerciais (propostas negociais e textos de contratos).
O professor de Língua Portuguesa do ISCA Faculdades, Alexandre Mauro Bragion, acredita que o acordo ortográfico é mais uma utópica tentativa de unir internacionalmente algo de impossível padronização: a língua. "Como organismo vivo que é, ela se constrói e se modifica naturalmente no dia-a-dia", diz .
Para ele, essas mudanças ortográficas vão interferir muito pouco no que diz respeito às aulas de língua portuguesa. "Essa modificação apenas complica o ensino do português padrão nas escolas. Alunos e professores terão de rever seus conceitos e reaprender aquilo que já haviam ´decorado´", comenta o professor.
Diante das várias mudanças que ocorrerão na língua, Bragion conta que o acordo mexe, em especial, com a acentuação gráfica. "Essa questão já é um problema para os usuários do idioma padrão. A revisão dos tópicos sobre a acentuação gráfica será o ponto mais chato e difícil de se trabalhar", afirma.
Outro fator importante será o desaparecimento do acento diferencial. Não será mais utilizado o acento para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição), por exemplo. "Está aí, algo necessário que não deveria ter sido modificado. Desconheço a justificativa oficial para se excluir esse acento, que, por ser diferencial, por si só já se apresenta como necessário", questiona Bragion.
O Brasil será o primeiro país a implementar as regras oficialmente. As mudanças serão feitas a partir de 1º de janeiro de 2009, com um prazo de conclusão até o início de 2013. Nos quatro anos de transição serão aceitas as duas formas. O decreto prevê mudanças em aproximadamente 0,5% das palavras no Brasil. Nos outros países, as alterações podem chegar a 1,6%.
O que muda?
Paroxítonas terminadas em "o" duplo, não terão mais acento circunflexo.Exemplo: Ao invés de "abençôo", "enjôo" ou "vôo", os brasileiros terão que escrever "abençoo", "enjoo" e "voo".
Mudam-se as normas para o uso do hífen.
Exemplo: Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus decorrentes, ficando correta a grafia "creem", "deem", "leem" e "veem".
Criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação.
Exemplo: "louvámos" em oposição a "louvamos" e "amámos" em oposição a "amamos".
O trema desaparece completamente.
Exemplo: "linguiça", "sequência", "frequência" e "quinquênio" ao invés de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio.
O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação de "k","w" e "y".
O acento deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição).
Haverá eliminação do acento agudo nos ditongos abertos "ei" e "oi" de palavras paroxítonas.
Exemplo: "assembléia", "idéia", "heróica" e "jibóia". O certo será assembleia, ideia, heroica e jiboia.
* Aluna do 4º semestre de Jornalismo do Isca

