quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Gullar: da literatura ao jornalismo


Lilian Geraldini *

Cinco décadas dedicadas somente à literatura. Essa é a vida do escritor, poeta, cronista, crítico de artes, e ensaísta maranhense José Ribamar Ferreira (78), ou simplesmente Ferreira Gullar.


Na quarta-feira (22/10) Ferreira Gullar participou do projeto Viagem Literária, uma parceria entre a Secretaria de Estado da Cultura e as bibliotecas municipais de 40 cidades de todo o estado, na cidade de Piracicaba. Dezenas de pessoas estiveram presentes ao encontro, no qual Gullar passou lições de vida e falou sobre sua carreira na poesia, na literatura e no jornalismo.

Gullar foi locutor de rádio, trabalhou na redação de alguns jornais, e "até em banca de jornal", conta. Brinca ao dizer que de todo lugar que trabalhou foi demitido. Foi companheiro de Dias Gomes na TV Globo, teve seu primeiro livro publicado aos 19 anos de idade.

Por conta do atento da ditadura militar aos oposicionistas, ele, que já havia sido preso e passado um longo período na clandestinidade, em 1971 partiu para o exílio, morando primeiro em Moscou (Rússia), passando pelo Chile, Peru e Argentina. Somente em 1977 voltou ao Brasil. "Eu não queria, mas já que saí, em todos esses lugares eu aprendi muito, isso enriqueceu a minha maneira de ver as coisas, houve muita descoberta", revela. 

Segundo ele, o que mais marcou sua carreira foi a publicação de seus livros. "A coisa mais importante para um escritor são os livros que ele escreve e o reconhecimento do público, e eu estou contente". Durante o encontro, Gullar falou sobre algumas passagens de sua vida e sobre a poesia. Para ele, não há uma receita de sucesso de um poeta. "O poeta nasce feito, se não nasce não há jeito, assim como ladrão nasce ladrão, jogador de futebol, nasce jogador de futebol".

Em uma de suas participações na Festa Literária Internacional de Parati (Flip), no Rio de Janeiro, ele que estava na palestra junto de um palestino falando sobre exílio, disse, se referindo à guerra entre Israel e Palestina, que não devemos querer ter razão. "Usei o exemplo da briga entre casais. Os dois querer sempre ter razão, mas de que adianta? Ficam cheios de razão cada um em seu canto, mas infelizes. Não quero ter razão, quero ser feliz", completa. Depois disso, conta Gullar, sua frase virou "propriedade pública".

E sobre a arte, ele argumenta: "O homem faz arte, porque a vida não basta. É um ser inquieto, criativo, que inventa a si mesmo, e a própria vida".

 

Jornalismo

O escritor participou da reforma pela qual passou o jornalismo na década de 50, quando foi implantado o lead (o quê?, quando?, onde?, quem?, como? e por que? Perguntas utilizadas para escrever o primeiro  e  mais importante  parágrafo da notícia). A técnica americana foi introduzida no Brasil, primeiro, no jornalDiário Carioca. Gullar, que foi redator do Diário, integrou a equipe do Jornal do Brasil e auxiliou no abandono do chamado nariz de cera (modo prolixo de escrever uma matéria) para adotar o lead como padrão estético. "Nós éramos um grupo de jovens, levamos isso para o JB, o que renovou o jornal", diz.


* Aluna do 4º semestre de Jornalismo do Isca