terça-feira, 23 de outubro de 2007

Polícia para quem precisa

Daíza Lacerda *

Quase todo mundo já viu (o ibope estima 11 milhões de espectadores de cópias piratas), e a discussão em torno da cruzada do capitão Nascimento está longe de acabar.
Depois do documentário
 Ônibus 174 (que mostrou "a sociedade que estamos construindo"), o diretor José Padilha revela sem dó a crueza da guerra urbana nos morros do Rio de Janeiro. Alguma novidade? Ficção? Realidade.

Tropa de Elite, que tem entre os roteiristas Bráulio Mantovani - sim, o mesmo de Cidade de Deus - não traz nada menos do que já se conhece: a cumplicidade de policiais com o tráfico, que é sustentado pela classe média consumidora e combatido com violência pelo Bope (Batalhão de Operações Especiais, da PM no Rio de Janeiro). Na tênue linha que separa a paz e a guerra no morro, o idealismo e a corrupção, o filme desmistifica as "boas intenções" tanto das autoridades como dos bandidos.
Inspirado no livro
 Elite da Tropa, escrito pelos policiais Rodrigo Pimentel e André Batista, e pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, o filme incomoda pela violência, mas traz uma certa sensação de alívio pela integridade do Bope em comparação aos corruptos da PM "convencional". Mostra uma atitude, de fato, para o bem ou para o mal, fazendo o Batalhão viver seus dias de glória e ser ovacionado por onde passa. Por essas e outras, é amar ou odiar.
Em um país com tanta corrupção e impunidade, a violência se justifica? Em pesquisa da Vox Populi encomendada pela revista
 Veja, 72% dos entrevistados disseram que os traficantes do filme são tratados como merecem. Em contrapartida, 51% não concordam com a tortura como meio de se obter confissões. Isso em relação aos bandidos dos morros. Mas quem não sentiu um mínimo de satisfação na cena do treinamento, em que um policial corrupto é humilhado?
A questão é controversa. Um policial militar ganha cerca de R$ 800; se for do Bope, R$ 1.300, em média. Com os salários e as condições de trabalho que tem, ou o oficial é movido pelo idealismo ou pela corrupção. Esta é uma das causas do círculo vicioso que envolve a [falta de] segurança no país.
Mas como a responsabilidade é também da sociedade, a abordagem fílmica da classe média que sustenta o tráfico e a violência é pertinente. Na lei do capitalismo, só sobrevive o que tem mercado, e assim é o tráfico. E quem não é nem traficante, nem usuário e nem policial, se limita à indignação diante da trágica realidade social.
Em cada trabalho de Padilha é possível perceber uma ótica diferente das conseqüências de uma sociedade inerte, sobretudo as autoridades - lembrando os ataques do PCC, em que cidadãos de vários estados ficaram esperando por quem os defendesse. Em
Ônibus 174, a história do bandido Sandro, vítima do descaso e da miséria - gerida por quem? Em Tropa de Elite, a realidade da polícia em duas vertentes: a dos corruptos do "sistema" e a dos honestos e justiceiros. 
Então, quem é o bandido e quem é o mocinho? Ainda buscamos a resposta, mas é certo que os brasileiros estão cada vez mais intolerantes com a corrupção e a falta de segurança. No desespero, a violência combatida com violência passa a ser aceita, mas não se legitima, é claro.
Depois do livro
 Rota 66, de Caco Barcellos, muita gente deixou de ver a polícia com os mesmos olhos - pelo menos no que se refere aos batalhões especiais para as guerras nos morros e nas ruas. Na obra, Caco investigou a polícia que atira primeiro e pergunta depois, e as vítimas inocentes desses abusos. Já em Abusado, detalhou o funcionamento do tráfico na favela, e a influência e poder que envolve. Tropa de Elitetambém aborda o abuso: seja quem for, se delatar algum traficante, "já era". E depois a mãe vai aos prantos cobrar do capitão Nascimento o direito de enterrar o filho.
Caso de polícia ou de política, que a discussão não se abrande - pelo menos até que outra bomba estoure novamente, seja por meio da violência do bandido ou do policial, ou por outra obra que nos convide a aceitar que o caos social existe e grita, esperneia por soluções em um país de política desavergonhada.

* Daíza Lacerda é estudante do 6º semestre de Jornalismo do Isca e editora da Agência Nova